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Uma reflexão sobre o coro recebido por Dilma na abertura da Copa

Antes de começar esta reflexão de hoje, eu gostaria de deixar claro que não há como concordar com xingamentos contra a chefe de estado do país, independente de sua qualidade como tal. Da mesma forma não há como concordar com representantes do partido que comanda o país, fazerem o mesmo contra o líder máximo do judiciário e até ameaça-lo de morte.

De qualquer forma é preciso analisar com muito cuidado o fenômeno que tem levado o povo brasileiro a agir desta maneira.

Primeiro, não se enganem, ali não estava só a “elite brasileira” tampouco os que estavam ali estavam todos pagando R$ 1000,00 por um ingresso na copa. Pelo contrário, os poucos representantes reais das elites estavam na verdade, ao lado da presidente, na tribuna. A verdadeira elite são os donos de empreiteiras, os comandantes das estatais, os banqueiros, os coronéis do nordeste. Estes sim são as elites do país, os verdadeiros detentores do poder e os verdadeiros beneficiários históricos dos governos que tivemos. Qualquer afirmação diferente é, no mínimo, pura ingenuidade.

Pobres e classe média NUNCA mandaram em nosso país e NUNCA tiveram benesses que os diferenciassem, vindas dos governos em si, até recentemente, quando a compra de votos se tornou pratica institucionalizada. As diferenças entre estes grupos emergem historicamente, de sua postura frente aos desafios impostos EXATAMENTE pelas ELITES.

Até a conversinha de brancos x negros é uma distorção para fomentar esta sensação de rixa entre os dois lados, visto que a maior parte dos brancos caucasianos que temos hoje no Brasil, são de origem italiana. Para quem não se lembra, estes chegaram para substituir exatamente os negros abolidos e viveram em regime de colonato (que é praticamente semi-escravidão), sendo mantidos nas fazendas por uma prática que hoje é considerada legalmente como escravidão (endividamento). Isto coloca em xeque inclusive o argumento de que “Brancos têm uma dívida com negros”. Pelo contrário, são exatamente as ELITES que possuem uma dívida com brancos e negros de todas as demais classes sociais.

Um segundo ponto importante antes de desenvolver esta questão, é um esclarecimento que parece não ser bem compreendido pela esquerda. É importante perceber que dinheiro não sustenta nada, ao passo que dinheiro é apenas memória de produção. Quando se afirma que quem sustenta o Brasil é a classe média trabalhadora, não se está dizendo que são só estes que pagam impostos. É evidente que por aqui todos pagam impostos, mas impostos são apenas transferência desta memória para o controle do governo.
O que sustenta a economia, inclusive o valor do próprio dinheiro, é a produção que você pode trocar por este dinheiro. Portanto quem sustenta qualquer sistema econômico e, por consequência, qualquer governo é quem PRODUZ e não quem paga impostos.

Quem PRODUZ é quem TRABALHA. Portanto, só se pode dizer que quem sustenta o país é quem trabalha e, de preferência, quem trabalha MUITO! Quem paga impostos usando dinheiro que já foi obtido por via de impostos ou da apropriação de quem realmente PRODUZ, não está sustentando nada, está apenas circulando a riqueza que outros geraram.

Bom, vistas estas questões importantes, podemos buscar entender o que tem levado a uma parcela expressiva de pessoas da classe média (Brancos e Negros) a se revoltar com o atual governo, a ponto de faltar com respeito com a comandante da nação.

O principal é um sentimento de injustiça que impera na classe trabalhadora. Vejamos o porquê. Segundo dados do próprio IBGE, hoje a População Economicamente Ativa (PEA) representa cerca de 51% da população Brasileira. Destes, cerca de 38,5% estão desempregados (Sim, este é o número REAL do desemprego no Brasil, o governo nos conta uma mentirinha de que o desemprego é pequeno, usando um índice maquiado que elimina da pesquisa a parte da PEA que está desempregada, mas não está procurando emprego). Portanto, apenas 31,4% da população brasileira (cerca de 63 milhões de pessoas) trabalha para sustentar 200milhões de brasileiros. Destes, PASMEM, 51 milhões de pessoas são da classe média.
Ou seja, tomadas as pessoas individualmente, 80% das pessoas que EFETIVAMENTE sustentam o país, vêm da classe média. Se tomada a contribuição no âmbito da proporção da produção, este número ultrapassa fácil os 95%. Isso mesmo, 95%, pois a classe média é mais produtiva que as classes mais humildes que não possuem instrução adequada para serem efetivamente produtivas (uma pena porque a classe média adoraria que todos por aqui fossem produtivos).

Estes números são do IBGE e ajudam a desmascarar uma série de falácias e mentiras de nosso governo e principalmente da esquerda mal intencionada, sobre o papel da classe média no país.

Bem, acontece que o atual governo não valoriza o trabalho, pelo contrário. O Brasileiro trabalhador tem trabalhado hoje mais de 44 horas por semana, na verdade há pesquisas que apontam que este número ultrapassa as 50 horas, para ganhar líquido 4 vezes menos que um americano ou um europeu que trabalha em média de 36 a 40 horas semanais, fazendo a mesma tarefa. Ao mesmo tempo, este brasileiro é sobrecarregado com tributos e margens (ganhas pelas elites protegidas pelo governo) que dobram e até triplicam o valor dos produtos comercializados. Ou seja, este pobre brasileiro que se mata de trabalhar, trabalha em média 25% mais que um americano ou um europeu, para poder consumir (entenda como usufruir) apenas 9% do que estes consomem.

Este brasileiro que EFETIVAMENTE SUSTENTA o país, chega a pagar só de IR 27,5% sobre sua produção e somados os demais tributos, inclusive os indiretos, este valor beira os 60%. Enquanto isso, as ELITES verdadeiras pagam 15% a 20% em suas aplicações financeiras e atividades especulativas (veja que nem falamos aqui dos pobres, porque estes realmente não deveriam pagar impostos).

Este mesmo governo, vem aumentando violentamente a carga tributária sobre a classe média trabalhadora, para aumentar sucessivamente políticas sociais de compra de votos que diminuem o número de pessoas interessadas em PRODUZIR, e para aumentar os ganhos da verdadeira Elite que ganha verdadeiras fortunas do próprio governo, raramente é tributada e pratica margens absurdas no país.
Os salários médios vêm sendo achatados, os investimentos que possibilitariam o aumento da produtividade e a efetiva melhora na qualidade de vida da população têm sido dificultados, os impostos sobre quem produz de verdade têm sido continuamente ampliados e o povo que TRABALHA tem tido que trabalhar cada vez mais, para usufruir cada vez menos daquilo que produz.

O resultado está ai. O governo bateu no limite da exploração.

Esta prática que se tornou praticamente um roubo institucionalizado pelo governo, para alimentar as verdadeiras ELITES (estas que ficam escondidas da conversinha doutrinária do governo e dos esquerdistas mimimi que temos no Brasil), realmente tem levado à ira da classe média. Mas isso não tem relação com benesses históricas, ou qualquer outra falácia que nossos amigos sofistas da partidários do atual governo insistem em martelar na cabeça das pessoas. Tem relação com uma profunda injustiça que tem levado muitas pessoas a reverem até que ponto vale a pena produzir no país. Uma profunda injustiça SOCIAL, isso mesmo SOCIAL, que tem forçado quase 1/4 da população a trabalhar em um regime intensivo, para conseguir manter o mínimo de dignidade, enquanto enriquecem políticos, empreiteiras, coronéis, dirigentes de estatais e ainda financiam um processo de compra de votos e o esvaziamento da produtividade que tem tirado do cenário produtivo, pessoas que antes contribuíam alguma coisa para a riqueza do país.

O que vimos em São Paulo foi, portanto, a expressão de um Brasil que se cansou de sustentar benesses e não de um Brasil que está perdendo benesses que nunca teve. Foi um grito de revolta de um Brasil que está cansado de ser explorado e não ter nada em troca do governo, além de ser culpado pelo que o próprio governo não faz. Um grito de uma população que se sente insegura e desamparada pelo governo que deveria valorizar exatamente esta fatia da população que ainda se preocupa em PRODUZIR alguma coisa, para que o país tenha o que comer, o que beber, o que vestir, o que consumir.

O que vimos em São Paulo não foi um grito contra a Dilma, foi um grito de chega, de quem está cansado de ser culpado pelas mazelas de um país, ao mesmo tempo em que o sustenta. Um grito de chega para as mentirinhas de doutrinação bradadas por um governo que não representa povo algum. Que destinou a financiar empreiteiras e bancos em um único mês, mais do que todo o ano do projeto do Bolsa família. Enfim, um grito de chega de quem vê sendo idolatrados exatamente aqueles que exploram, em detrimento daqueles que são REALMENTE explorados.

Hoje, diante de tudo que tem acontecido, posso dizer sem medo que o povo de VERDADE, a classe TRABALHADORA, finalmente se cansou, finalmente percebeu que vinha sendo vítima de argumentos sofistas, muito bem elaborados, mas terrivelmente cruéis. Restam apoiando o atual governo apenas 2 tipos de pessoas… Os românticos que não querem ver que apesar de seu discurso de responsabilidade social, o governo PT está loteado de forma a restringir o avanço socioeconômico do país (pois sem aumento da produtividade e avanços econômicos, estamos fadados a uma tragédia social) e aqueles que estão se beneficiando diretamente das boquinhas que o saque institucionalizado pode proporcionar.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645
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