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Temer: do desastre ao triunfo ou do triunfo ao desastre?

Agora que o clima de festa pelo afastamento do pior governo da história republicana começou a esfriar, é hora de analisar algumas das possibilidades desconfortáveis que esta mudança de segunda ordem, representada pela crise política/econômica que vivemos, nos reserva. Para tal, é preciso manter o pé no chão e evitar negligenciar as possibilidades pessimistas que são muitas.

Para começar é preciso recordarmos duas questões fundamentais. Primeiro que Dilma ainda é a presidente do Brasil e que a vitória de seu afastamento seria suficiente para o seu Impeachment, mas se deu por apenas dois votos no Senado. Deste modo, ainda é possível que Dilma volte em até 180 dias. Segundo que a situação econômica do Brasil ainda é crítica. Os gastos públicos continuam superando as receitas, receitas estas que precisam ser baixadas para reativar a economia, mas que carecem de uma série de cortes impopulares para que isto possa ser feito.

É nesta relação delicada que mora o perigo para o país. Basicamente Temer tem menos de 180 dias para fazer o impossível. Mostrar que é capaz de reativar a economia e controlar os gastos públicos, sem promover grandes impactos em serviços sensíveis à população. Suas alternativas são basicamente conseguir adiantar ao máximo o processo (coisa contra a qual o PT lutará arduamente e tem menor probabilidade de ocorrer) ou construir uma base de apoio sólida, pautada em resultados visíveis. Caso contrário o Vice do governo petista pode perder o apoio necessário para consolidar o Impeachment e podemos assistir à volta de Dilma, triunfante e fortalecida, ao governo.

Fortalecida para que? Para retomar os ideais desenvolvimentistas que pautaram seu governo anterior e tentar novo fôlego para a eleição de 2018. Como vencedora do embate político, ela basicamente teria força para seguir ampliando gastos públicos para suas bases e esta é uma possibilidade real (claro que ela também poderia ter bom senso, mas este não se mostrou o forte dela até então). O problema é que o país já se encontra em um limiar insustentável da relação entre gastos e crescimento da dívida pública. Mais um ou dois anos de Dilma resistindo aos cortes na carne que precisariam ser feitos, poderiam levar o país a um estado de devastação econômica e social, típico de cenários de guerra.

Mas Temer poderia dar certo, não? Sim… Ele pode ter o sucesso político de adiantar significativamente o Impeachment ou pode aproveitar a euforia inicial com o afastamento do governo petista para conseguir fazer em 6 meses um conjunto de mudanças estruturais que dêem indícios fortes de retomada econômica e de uma nova postura em relação ao papel do governo na economia, ganhando apoio da parcela da população que é contrária às políticas petistas. Como hoje esta parcela é maioria, isso lhe garantiria a manutenção dos votos do Impeachment e o fim definitivo do governo Dilma. De quebra ainda conseguiria ofuscar um eventual candidato petista nas eleições de 2018.

Nesta equação toda ainda há o TSE, concentrado no julgamento da regularidade da chapa do governo (que inclui Temer e Dilma). Este julgamento pode levar à perda de mandato de ambos, mas deverá ser feito apenas em 2017, o que abriria um novo capítulo para eventuais discussões políticas no Brasil, visto que o novo chefe do executivo seria eleito de maneira indireta pelo congresso. Curiosamente, não se discute esta possibilidade no momento, mas ela ainda existe e pode ser um desfecho completamente inesperado, visto que as discussões sobre quem seria o novo presidente do país neste cenário ainda passam longe de serem abertas.

O Brasil, em geral, está em festa e acredita que foi do desastre causado pelo pior governo da história republicana ao triunfo de ver renascer um novo país, mas precisa ficar atento pois ainda pode ver o triunfo se transformar no desastre de o termos de volta este governo… Pior, fortalecido. Por isso, ressalto que este é um momento crítico no qual a população que deseja o bem do país não pode baixar sua guarda. A guerra por um Brasil melhor não foi vencida em 12 de maio e esta vitória ainda está longe de acontecer. É preciso cobrar de Temer que faça um bom trabalho para que este não estrague todo o trabalho feito nas ruas, desde 2013.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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