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Sobram anticorpos à democracia

Hoje, o Clóvis Rossi, intelectual da Folha de São Paulo, postou um texto sobre o Brexit em sua coluna afirmando: “Falta coração à democracia“. De cara, a palavra coração já me deixou preocupado, mas assim mesmo li o texto com atenção, esperando encontrar algo que pudesse se ligar aos ventos da mudança… Afinal, viria aí uma discussão sobre a democracia (ou será que não). Entretanto, o que pude constatar no decorrer da leitura foi que as análises de dinâmicas socioeconômicas dos intelectuais da grande mídia continua rasa como uma gota de orvalho. Ele até se esforça, reconhece que há um problema, mas não o toca. Seja pelo medo de falar algo que vai bater de frente com o politicamente correto, seja por um profundo desconhecimento sobre os princípios que regem uma dinâmica social (o mais provável, visto que por aqui a falta de conhecimento sobre esta questão é destacada).

Ele apresenta a idéia de que a fragilidade da democracia está sendo explicitada no caso britânico, por uma resposta à elitização da classe política… Não poderia estar mais errado, ela está sendo explicitada exatamente por conta de um problema alimentado pelos progressistas. A dita “diversidade” que muitos se orgulham de exaltar, mas poucos entendem suas implicações sobre as estruturas sociais.
Paradoxalmente, a diversidade é o grande algos da democracia. Por dois motivos: 1) a teoria dos jogos mostra que a ampliação da diversidade complexifica as preferências, tornando cada vez mais difícil adequa-las dentro de um único molde que agrade à uma maioria (há uma solução para esta questão, mas não vou tratar aqui em nome de facilitar a leitura). 2) Conforme acumula diversidade, um sistema vai fortalecendo sua identidade e gradativamente vai ampliando sua capacidade de resposta às perturbações externas (algo cujas consequências tem força de lei natural, prevista pela cibernética na lei da variedade requerida). Ao mesmo tempo, esta diversidade atua como perturbações que podem ser adequadamente absorvidas por um sistema que apresente sinergia estrutural com a entidade incorporada ou podem disparar reações devastadoras, quando uma das estruturas apresenta uma identidade robusta que é perturbada pela outra. Quanto mais robusta a identidade de um sistema, mais ela tende a reagir visando eliminar as perturbações externas que tentem promover mudanças nestas estruturas sociais consolidadas.
Trata-se de uma reação análoga ao que o nosso corpo faz quando reage a uma doença, usando anticorpos para destruir aquilo que a provocou. No caso, este “anticorpo” agiu diretamente contra o problema, o que impactou sobre o sistema de governo que permitiu que se estabelecesse perturbações. O sistema social reagiu da forma que sua própria estrutura, regida por uma democracia, permitia, buscando nada mais do que reestabelecer uma identidade que se sentiu ameaçada diante das circunstâncias.
Infelizmente, como a ignorância sobre teoria dos sistemas, teoria dos jogos e complexidade é a regra geral, este delicado e polêmico tema foi ignorado mais uma vez e voltamos a mais desse blá, blá, blá doutrinário, carregado de achismos de todas as partes. Chega a ser uma profunda desconexão com a realidade atribuir o que ocorreu no caso da Inglaterra a uma resposta às elites. Está claro e cristalino que a derrota foi da imigração, assim como está sendo em todo o mundo. Foi este o aspecto amplamente discutido e que movimentou toda esta resposta, cujo resultado é exatamente um resultado anti-imigração. 
Mas é lógico que isto não pode ser dito, pois seria uma afronta aos ideais progressistas que infestam a sociedade. Tal alcunha mal seria aceita pelos que votaram pelo Brexit… Por isto que mesmo com o mundo todo assistindo as elites se aproveitando destes eventos para retomar os espaços perdidos para outros grupos de poder, temos que fingir que a reação é contra estas tais elites… Afinal… Deus me livre expor uma verdade dessas. É melhor propagar a inverdade conveniente de que falta coração à democracia, do que admitir a inconveniente verdade de que lhe sobram anticorpos… Uma verdade daquelas que fere em cheio as esperanças daqueles que acreditam que um dia teremos uma cultura efetivamente global e massificada.

Obs: Para os que tiverem dificuldades de entender, este texto não se trata de um texto com uma opinião pessoal anti-imigração, tampouco é anti-imigração. Pelo contrário, é uma explicação com base científica sobre como se constrói a identidade cultural ao longo do tempo e do que ocorre neste tipo de contexto apresentado especificamente na realidade inglesa.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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