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Seria a imigração a causa do terrorismo?

Sempre que há um atentado terrorista perpetrado por islâmicos no ocidente, surgem pessoas bradando contra à imigração e à liberdade religiosa. A maioria esmagadora destas pessoas tendem a chamar a atenção contra o “perigo” representado pelo islamismo e pelos estrangeiros. Pois bem, será que o problema reside especificamente no Islã? Será que a imigração é tão ruim assim para a construção cultural de um país? Será que deveríamos mesmo viver isolados?

No decorrer deste texto vou demonstrar que tais perspectivas não poderiam estar mais equivocadas, que o problema não reside no Islã, nos estrangeiros  ou na abertura, mas em elementos muito distintos que podem, inclusive, ser alimentados por este tipo de discurso.

Vou começar essa discussão mostrando como a tomada de casos de atentados terroristas, como argumento para atacar certas abordagens religiosas ou mesmo os estrangeiros, pode ser uma profunda prova de ignorância ou viés de confirmação.

Tem sido comum nos dias de hoje que muitos façam uma relação direta entre estrangeiros e o terrorismo ou uma associação entre islã e a pregação da violência. Seria isso uma verdade? Pois bem, não se pode negar que há pontos que possam ser entendidos como pregação da violência em textos islâmicos, assim como há na bíblia cristã. O antigo testamento, por sinal, possui mais referências à violência do que no Alcorão. Alguns podem alegar que o problema é a interpretação, que os islâmicos são mais propensos a se focar nas interpretações que pregam a violência nos textos do Alcorão, do que os cristão na Bíblia. Esta é uma questão em aberto, mas se tomarmos como base o Terrorismo, veremos que isso pode não ser uma verdade absoluta, como muitos pregam.

Para demonstrar que os problemas de interpretação focada na violência podem ser gerais, eu poderia usar como referência as cruzadas ou a inquisição, momentos da história onde cristãos, tomando por base interpretações da bíblia, cometeram atrocidades enormes, comparáveis às que vemos em muitos locais onde impera o islamismo mais radical nos dias de hoje. Neste ponto, alguns podem argumentar que isso é coisa do passado, que o cristianismo já superou isso há tempos. Nesse nível de barbárie generalizada pode até ser, mas com relação à superação, para muitos isso ainda está longe de ser verdade. Assim como o radicalismo existe no Islã, existe também entre os cristãos, inclusive contra muçulmanos.

Neste início deste ano, por exemplo, uma mesquita canadense foi vítima de um ataque realizado por um cristão, que abriu fogo matando 6 pessoas. Também não podemos nos esquecer que o segundo maior atentado terrorista da história americana, com 168 mortos e mais de 500 feridos (o atentado de Oklahoma City), foi um ato de terrorismo doméstico, promovido por um davidiano (um grupo cristão radical). Em julho de 2011, a Noruega viveu um dos maiores ataques terroristas ocorridos em solo Europeu, onde 76 jovens foram mortos por um fundamentalista cristão, também em um ato de terrorismo doméstico. Nos três casos, os atentados não tiveram relação nem com estrangeiros e nem com o islã, mas sim com cristãos, nascidos no país vitimado pelo atentado e isso é mais frequente do que se imagina.

Segundo dados do FBI, entre 1990 e 2010 os EUA foram vítimas de 145 atentados terroristas perpetrados por cidadãos americanos, a maioria esmagadora por cristãos. Estes atentados resultaram em 348 mortes. Apenas entre 2008 e 2012, 52 americanos foram presos pelo FBI, tramando contra seu próprio país. No mesmo período, apenas 25 atentados foram perpetrados por estrangeiros no país. Além disso, diferente do que vem sido pregado por certos grupos, o Southern Poverty Law Center tem mostrado que o número de ameaças locais têm crescido. Hoje são monitorados 1.274 grupos de ameaças locais nos EUA, a maioria de fundamentalistas cristãos.

Se isso for expandido para Asia e Europa, os números do terrorismo doméstico, ficam ainda mais assustadores. No longo histórico de atentados sofridos no continente europeu nas últimas décadas, vários dos autores eram nascidos e criados na própria Europa e muitos tinham orientação cristã. Para demonstrar isso, podemos partir da era de ouro do IRA, uma organização católica que até 2005 matou mais de 3500 pessoas em território britânico, passar pelo ETA e suas 829 mortes em nome do “estado basco” e chegar a vários casos de terrorismo doméstico recente. Mesmo em muitos dos atentados que podem ser ligados diretamente ao extremismo islâmico, os autores não vinham de países do oriente médio ou do continente africano, não eram refugiados sírios ou de qualquer outro dos chamados de grupos de risco, mas dos próprios países atacados. Este é o caso dos atentados do Metrô de Madri em 2004 e Londres em 2005, do atentado contra o parlamento inglês, em março de 2017, e do atentado recente em Londres, perpetrado contra o show da cantora Ariana Grande. Todos atos de terrorismo doméstico, conduzidos por muçulmanos, é verdade, mas organizados e/ou com participação ativa de indivíduos nascidos no próprio país vitimado.

A esta altura, já dá para perceber que o terrorismo não está restrito aos muçulmanos radicais, tampouco aos estrangeiros, como pregado por muitos dos que defendem a tese do mau estrangeiro. Os dados mostram que culpar os 1,5 bilhão de muçulmanos pelos atos de poucos e, principalmente, os atos de estrangeiros por aquilo que é predominantemente cometido por locais, pode ser um enorme perigo. Exatamente porque, ao longo da história, é possível perceber o contrário: que é muito mais fácil encontrar terroristas entre os locais. Também é possível perceber que os grupos envolvidos neste tipo de radicalismo não mostram uma preferência religiosa, como pode parecer ao olhar seletivo de quem se sente atacado por outra cultura, filtrando os atos temerários da própria cultura. O que se observa é que o radicalismo político ou religioso é o fator comum aos terroristas, independente da origem e do viés político ou religioso do terrorista.

Diante das evidências, parece claro que é exatamente contra o radicalismo que devemos nos posicionar, seja ele qual for. Inclusive, os radicais que pregam contra o Islã, o Cristianismo ou qualquer outra religião, credo ou cultura. São os radicais a principal ameaça, é deles que costumam partir os principais atos de violência, especialmente contra as maiorias que vivem de maneira diferente de seus ideais de sociedade. É quando a minoria se levanta contra o modo de vida das maiorias que os riscos de violência se exacerbam.

Uma vez desmascarada a falácia do vilão estrangeiro, é possível atacar nossa segunda pergunta a respeito da imigração: o argumento de que ela não é vantajosa para a população. Para isso, recorrerei a uma lei natural, a lei da variedade necessária. Esta importante lei, descoberta pelos pensadores sistêmicos (especificamente os ciberneticistas), mostra que os sistemas dotados de maior variedade são aqueles que possuem maior capacidade de sobreviver a perturbações do meio. A diversidade em um sistema social, é dada não por uma diversidade de etnias, mas por uma diversidade cultural, na forma de ver o mundo, e neste ponto não há nada mais produtivo para uma sociedade do que a abertura para absorver as contribuições positivas de outros povos. Isso não quer dizer que o sistema deva aceitar aquilo que é negativo para seu funcionamento, ele provavelmente irá reagir a isso e impedir que ocorra. Mas o princípio é que a diversidade sinérgica deve ser aproveitada. A prova destes benefícios podem ser vistas ao longo de toda a história, a começar pelos Romanos. As civilizações mais prósperas, sempre foram aquelas que foram capazes de assimilar e incorporar os pontos positivos de outros povos, enriquecendo sua própria cultura.

Já que estamos tratando da prosperidade das civilizações, podemos nos concentrar também em responder à terceira pergunta. Para isso eu recorrerei ao trabalho de Jered Diamond. Em seu livro denominado “Colapso”, este proeminente pesquisador demonstra que o fechamento de uma civilização em si mesma tem sido fator historicamente determinante para o colapso das civilizações. Nas civilizações estudadas pelo autor, o fechamento restringiu as possibilidades de reação das mesmas a mudanças locais, fazendo com que suas estruturas socioeconômicas se desintegrassem. Esta constatação se mostra totalmente aderente à Lei da Variedade Necessária e corrobora o ponto de que a diversidade e a abertura não só são fundamentais para a prosperidade, como para a sobrevivência das civilizações.

Diante do exposto, seria correto atribuir ao Islã como um todo um caráter negativo, tomando por base casos isolados de Terrorismo? Pois bem, as evidências mostram que não. Como vimos acima, seria mais apropriado atribuir os atos de terrorismo ao radicalismo político e religioso, independente de a qual religião ou viés político estes se referem. Especialmente quando este radicalismo passa por tentar impor à maioria, um dado estilo de vida ou credo. Diante do apresentado, também fica ainda mais temerário atribuir aos imigrantes tal problemática, visto que parte significativa dos casos de terrorismo ao redor do mundo possui origem local, rompendo com a lógica de causalidade proposta por certos grupos de interesse, anti-imigração. Neste contexto, a aversão ao imigrante pode ser duplamente danosa: ela pode nos induzir a evitar a diversidade, tão necessária para o desenvolvimento e perpetuação de uma sociedade e/ou, ainda pior, pode fomentar exatamente o tipo de radicalismo que leva à emergência das tendências terroristas que se busca evitar.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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