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Renata Barreto x Tico Santa Cruz: a hora do basta aos pensadores de botequim

A cerca de um ano, em pleno auge das discussões sobre o futuro do país e as consequências das ações do governo PT em nossa economia, eu escrevi um texto em meu blog denominado O País Dos Economistas De Botequim. Este texto (quase um desabafo) surgia em um momento em que uma grande massa de pessoas, sem qualificação alguma na área (e até alguns qualificados mal intencionados), pregava a boa saúde de uma já combalida e recessiva economia. Sem nenhum fundamento, com conhecimento pífio, repetiam mantras típicos de manuais de doutrinação ideológica, apontando seus culpados para serem “queimados nas fogueiras” da inquisição progressista.

Este desabafo ocorria em meio ao clima eleitoral que tomava conta do país naquele período, mas o problema viria a se tornar crônico com a massificação das opiniões das redes sociais e o pior, com muitos midiáticos embarcando na onda de se colocarem como “grandes pensadores” em assuntos em que mal dominam o B-A BA…

Apesar de muitos considerarem este comportamento inocente ou mesmo típico do ignorante, ele está muito longe de o ser. Pelo contrário, é altamente prejudicial para a sociedade e muitas vezes adotado de maneira intencional em nome de uma “causa”. A difusão da desinformação e as análises que sequer podem ser chamadas de amadoras, ajudam a justificar e até conduzir decisões equivocadas, com elevado impacto social, principalmente de médio e longo prazo. Nossa combalida economia é a prova definitiva dos males provocados por esse apoio “politicamente correto” à decisões com pouco ou nenhum fundamento efetivo. Enquanto pessoas providas de fundamento eram rechaçadas como vilões, em nome do “politicamente correto”, os “economistas de botequim” infestavam as redes sociais com seus discursos ufanistas.

O maior problema destas abordagens é que além de ofuscarem e demonizarem as pessoas que poderiam efetivamente ajudar a resolver o problema, quando este comportamento de pajelança econômica é adotado por pessoas relativamente conhecidas, pode ganhar dimensões tais que o tornam ainda mais perigoso e danoso para a sociedade. Algo como o equivalente médico a um ator ir à TV dizer para as mães não darem vacinas aos seus filhos, porque elas não surtem efeito e têm efeitos colaterais sérios, sob o argumento que isso só não é difundido porque a mídia e os médicos querem esconder esta questão para não prejudicarem a indústria farmacêutica. É evidente que alguém com o mínimo de bom senso ignoraria tal conselho, mas como o bom senso e a racionalidade são elementos escassos em nossa sociedade, pode estar certo que um conselho como estes renderia milhares de crianças hospitalizadas com doenças que são, muitas vezes, incuráveis.

Este exemplo pode chocar, mas todos sabemos que acontece… Pior, temos o equivalente econômico dele ocorrendo hoje no Brasil em GRANDE ESCALA. Isto acontece porque o domínio que a população em geral tem a respeito de dinâmicas econômicas e o impacto social da economia é ainda mais pífio do que aquele que tem a respeito de medicamentos e vacinas.

Entre Boffs, Abreus e Buarques, talvez o mais icônico e perigoso dos “pensadores contemporâneos” de botequim, seja o cantor Tico Santa Cruz. Isto porque, devido à sua posição como cantor, ele possui uma enorme penetração entre os jovens. Tico, porque aparentemente o Teco já se foi há tempos, defende que a atual situação econômica do país não se trata de uma crise grave, mas se deve a uma espécie de complô, aparentemente focado em destruir as “conquistas sociais” que o país alcançou nos últimos anos (ver citação de seu texto a seguir). Aquelas mesmas que ele insistentemente ignora que foram “obtidas” por canetadas e o que não foi, se deve mais a heranças passadas e às condições econômicas favoráveis ao nosso maior produto de exportação, do que qualquer outra coisa. Pior, ele também parece ignorar que aquelas mesmas condições que foram estabelecidas no passado, para permitir os poucos avanços que tivemos, encontram-se ruindo a um ritmo assustador.

1 – Tico Santa Cruz apresentando sua visão “humilde” sobre a crise.

“Às vezes fico na dúvida se existe realmente essa CRISE do tamanho que estão vendendo ou se estamos passando por um momento de retração da economia, com aumentos de preços SIM – inflação, com perdas importantes considerando os últimos 10 anos em que nosso país viveu uma fase econômica positiva, onde as pessoas tiveram acesso a bens de consumo, compraram carros, viajaram, compraram imóveis e etc…
Não sei se existe dentro do contexto econômico atual a possibilidade de não passar por altos e baixos em determinados períodos, mas vejo a Europa com problemas Graves, os Estados Unidos tentando se reerguer após aquela grande depressão de 2008 e enfim…
Eu viajo pelo país inteiro, fazendo shows. Trabalho com entretenimento… Tenho visto os aeroportos cheios, as pessoas viajando, as noites com restaurantes lotados – shoppings com bastante movimento… os lugares não demonstram estar nessa CRISE que é vendida.
Fico sabendo também de DEMISSÕES… em alguns setores como o automotivo. Aquele mesmo que deu um BOMMMMM nos últimos anos, que contratou bastante gente para dar conta do alto índice de consumo que o povo brasileiro adotou. Tem gente com 2 e até 3 carros na garagem..
Daí me pergunto… esses setores que lucraram tanto em tempos recentes, com a retração da economia não podem segurar um pouco e diminuir seus lucros mas manter seus funcionários ou será que eles quebram se mudarem o Modus operantes para adaptar a realidade do país? Pergunta de leigo, pois não sou economista.
Tivemos também aumento da Luz, da Gasolina, que refletem nos preços de outros produtos. Mas caramba, quando eu vi meu país numa GRAVE CRISE… como a que estão querendo… tinha fila nos postos de gasolina para abastecer… as pessoas ficavam a madrugada em verdadeiros engarrafamentos na frente dos postos para evitar o aumento quase que semanal dos preços.
Me lembro também de meus pais e pessoas próximas comentando sobre os frequentes, quase diários aumentos nos preços dos alimentos. Era um inferno.
EM MOMENTO ALGUM NEGO QUE ESTEJAMOS PASSANDO POR UM MOMENTO DELICADO QUE EXIGE MUITO CUIDADO E QUE TEM PESSOAS SENDO AFETADAS POR ESSES PROBLEMAS.
Mas essa CRISE CRISE CRISE CRISE que estão dizendo ai…
Sinceramente… não estou vendo.
Não é porque tenho uma boa condição financeira, é porque eu vejo pelos lugares, pelas pessoas, pelo que é cortado quando estamos numa CRISE GRAVE.
A sensação que tenho, MAS POSSO ESTAR ERRADO, é que existe um MOVIMENTO em prol de uma CRISE para que cada vez mais nosso país fique desestabilizado FINANCEIRAMENTE, EMOCIONALMENTE, e que isso sim… nos leve a um quadro grave de crise, porque o MEDO gera CRISE e de tanto ler notícia ruim, de tanto ver gente martelando a palavra CRISE, a CRISE ACONTECE.
Existe muitas PREVISÕES de gente especialista em economia para possíveis aumentos de juros, de Taxas e etc, mas efetivamente nada aconteceu ainda.
Não vejo notícias boas sendo divulgadas, como as melhorias das ações da Petrobrás, as Boas Safras de produtos agrícolas exportados para o exterior… só vejo notícias que tentam me jogar numa depressão e que me coloquem em CRISE…

Gente… Estar passando por tempos difíceis exige de nós atenção e cuidado. Reconhecer que temos problemas é fundamental para saná-los.
Mas se embarcarmos em algo que ainda não aconteceu… acaba acontecendo.
Tem MUITA GENTE INTERESSADA NUMA GRAVE CRISE, Mas não por questões econômicas, e sim por questões políticas. Isso está tão claro para mim que chega me dar um aperto no peito. Porque eu reconheço os problemas e acho a indignação TOTALMENTE LEGÍTIMA…
Mas RECONHEÇO CLARAMENTE um movimento que visa nos desestabilizar para gerar que setores que GANHAM COM CRISES, possam voltar a CENA.

Posso estar completamente errado.
Mas é o que sinto desse momento.

O medo é fé no contrário, quem trabalha E GANHA COM O MEDO, tem medo de que as pessoas percam o MEDO.”

Enfim, não vou entrar no mérito de apontar todas as falhas na percepção vendida pelo cantor. Quem me acompanha há mais tempo já conhece minha leitura a respeito do problema, inclusive já sabe que eu fui um dos que previram a crise com enorme antecedência, exatamente como ela está acontecendo, indicando até as variáveis chave que causariam o problema (que ainda permanecem ignoradas por muitos). Vou deixar esta resposta para Renata Barreto, a economista que virou sensação na rede ao gritar seu BASTA a tanta desinformação. Ela, mesmo com todo o risco inerente a desafiar uma celebridade tida como referência intelectual para muitos, resolveu falar à esta referência da juventude, o que muitos têm vontade de falar há algum tempo. Algo como: “MEU CARO, PARA… VOCÊ NÃO SABE DO QUE ESTÁ FALANDO…” Com um texto contundente ela explicitou a argumentação falaciosa de Tico Santa Cruz, claramente desenhada para passar uma impressão de humildade sábia, como sempre o cantor costuma fazer para vender suas posições aos desavisados. É claro que não poderia deixar o leitor sem a argumentação de Renata.

2 – Renata Barreto e seu contundente basta ao “pensador”

“Grande pensador contemporâneo, Tico Santa Cruz. Ontem você postou um texto sobre a crise, com maluquices tão absurdas que resolvi te enviar uma resposta, não só como economista, mas como cidadã brasileira consciente.

Você está em dúvida se existe realmente uma crise, já que apesar de estarmos passando um momento de retração da economia, tivemos 10 anos positivos, com pessoas tendo acesso à carros, imóveis e etc. Tiquinho, meu bem, a tia te explica: Primeiro que tínhamos uma farra de preços de commodities e nunca incentivamos a indústria de forma consistente, correndo o risco de essa farra acabar e a receita cair, não tendo outra fonte substancial para segurar o crescimento. Segundo que, tudo que as pessoas compraram nesses últimos anos foi às custas de redução de juros drástica e imatura, que incentivou o crédito demasiadamente, além de preços administrados controlados artificialmente, assim como redução de impostos para diversos bens de consumo. Os gastos públicos só aumentaram sem responsabilidade nenhuma. Meta de superávit? Inflação controlada? Responsabilidade fiscal? Pra que?? Com essa política populista, ganhamos uma belíssima conta para pagar no futuro. E esse futuro chegou.

Sua lógica me surpreende. Diz que houve demissões, em especial no setor automotivo, o mesmo que teve um boom nos últimos anos, que contratou muita gente para dar conta do alto índice de consumo que o povo brasileiro adotou. “Será que esses setores, que lucraram tanto, não podem manter seus funcionários neste momento de crise ou será que quebram? Pergunta de leigo, pois não sou economista”. Não precisa ser economista querido, precisa ter o mínimo de massa encefálica, coisa que lhe falta, aparentemente, tanto quanto uma boa música. Se a empresa não faz nada num momento de crise, é obvio que ela quebra! E se ela quebra, não tem emprego para ninguém! Entendeu? Mas você acha que o problema é o sistema capitalista opressor e seus lucros não é mesmo? Comovente.

A minha parte favorita é quando você diz que muitos economistas preveem aumento de juros, de taxas e que NADA efetivamente aconteceu. Aí eu levo minhas mãos à cabeça e fico imaginando que espécie de sinapses você faz com os neurônios que lhe sobraram. A taxa de juros básica está em quase em 14%; a inflação está cada vez maior (projetado para o final do ano é de mais de 9%, e a de junho foi a maior para o mês em 19 anos); houve aumento de impostos; os preços administrados foram corrigidos (energia, gasolina, etc.); o dólar está no maior patamar em 12 anos (que por acaso pressiona ainda mais a inflação) e o endividamento das famílias está quase em 50% com o incentivo do crédito nas épocas que você chama de boa fase econômica. Ah, não se esqueça que ainda houve corte das metas fiscais; o desemprego cresceu e deve crescer ainda mais; o PIB está em retração, estimando-se 1.70% de crescimento negativo em 2015 (dois anos seguidos de retração não acontece no Brasil desde os anos 30); corte de verbas na educação; demissões nos setores de indústria, infraestrutura, comércio e serviços; escândalos absurdos em grandes companhias do país como a Petrobras e Odebrecht; recuo na renda real do trabalhador; mudanças em direitos trabalhistas; corte de 40% no orçamento do PAC e uma enorme crise de credibilidade, que apesar de intangível (procure no dicionário), é responsável pela escassez de crédito e diminuição drástica de investimentos no país. Com a crise política, essa credibilidade fica ainda mais afetada.

Sua sensação é de que a crise é apenas um sentimento plantado por pessoas que queiram ver o país desestabilizado financeiramente e emocionalmente e que isso sim seria o responsável por nos levar à verdadeira crise, pois o medo desta é o que realmente faz que ela aconteça. Agora o problema é psicológico? Quanta criatividade para uma teoria da conspiração. Que gente é essa que está interessada numa grave crise? Quem quer ver o país perdendo valor, retraindo, perdendo cada vez mais credibilidade, empregos, poder de compra? Que setores são esses que você fala que ganham com crises e podem “voltar à cena??”. Que raio de pessoas são essas que ganham com o medo? E mais, como eles conseguem dominar todos os canais de notícias, inclusive internacionais? Que brilhante conclusão!!!

Te digo com absoluta certeza que a única coisa que acertou neste mar de asneiras foi dizer que poderia estar completamente errado em suas considerações. Não só está MUITO errado nesta avaliação econômica non sense, quanto em lógica e tudo que conheço por pensamento racional. Você próprio diz que é preciso reconhecer os problemas para poder saná-los, mas que estes ainda não aconteceram. Se a situação que temos hoje ainda não é uma crise preocupante para você e o que vivemos é apenas uma especulação, pode aposentar seu diploma de pseudo intelectual. Nem isso dá mais pra fazer.

Ser realista nesta joça de país virou ser pessimista, que virou ser antipatriótico, que virou ser coxinha, que virou “alguém tem interesse nessa tal de crise”. Se o pior cego é aquele que não quer ver, Tico, você precisa de um cão guia.

Um grande abraço (com tapinhas nas costas), da economista, brasileira e sem interesse algum no medo de outrem,

Renata Barreto.”

Para quem não acompanhou toda a história, Tico ficou acuado em um primeiro momento. Ao ser desmascarado em sua ignorância sobre o tema, procurou evadir da discussão, até que lhe enviaram um vídeo da Renata falando sob inflação e este resolveu, em seu ardil, se utilizar do vídeo (fora de contexto é claro) para tentar armar uma resposta que desse novo peso à sua primeira argumentação falaciosa e o colocasse de volta àquela posição de humilde defensor do “politicamente correto”, a qual julga ter direito. É claro que trago o texto para vocês poderem tirar suas próprias conclusões.

3 – Tico Santa Cruz se levanta e tenta reconstruir sua falácia.

“Renata Barreto ( a economista )

ao contrário de você, serei gentil e respeitoso em minha colocação, já que além de tudo, fui eu o responsável pela sua fama repentina.

Primeiro quero ressaltar que o seu texto é de fato muito bem escrito, uma pena que você tenha usado de uma linguagem de deboche e falta de respeito. Por outro lado você não faria sucesso algum nesse mercado do ódio que se tornou a internet, se não usasse a forma de expressar que essas pessoas sedentas por sangue entendem e assimilam de maneira simples.
Então que fique claro que grande maioria delas pouco se importa se você ofereceu um bom conteúdo ou não, o que elas gostam é do combate, da competição e dos cadáveres que sobram.

Analisando este vídeo que me foi enviado por um colega seu, me parece que de fato você não entendeu minhas ponderações.
VAMO LÁ:
– Quando eu me refiro a crise como um momento delicado e não como a que já vivemos em tempos muito mais sombrios, quero dizer o que o seu pai talvez possa lhe explicar melhor, já que como você diz no vídeo “Eu não sou muito bem dessa época” E “meu pai lembra bem disso”…
– Entendo perfeitamente que isso dificulta mesmo o contexto de interpretação do meu texto, porque quando me referi uma CRISE econômica GRAVE, estava falando desse tempo em que você define bem no vídeo quando afirma que ” a inflação era um MONSTRO que nos afetou por muitos anos”.
Seguindo seu raciocínio, do qual eu concordo ” O Plano Real está ai desde 94 e nós nunca vivemos uma estabilidade por tanto tempo” – Tempo esse que você viveu e viveu bem. E você segue muito bem, pontuando que “A INFLAÇÃO, ela é CÍCLICA, PONTUAL e tem como ser corrigida”, que é o cenário que um Brasileiro como eu que torce pelo seu país espera.
Não sou especialista em Economia, e deixei respeitosamente isso claro no meu texto, mas queria que numa próxima oportunidade você falasse mais sobre a Dívida pública e uma possível auditoria dessa dívida e a quem essa dívida privilegia.

Considerando que seu vídeo é de um passado recente, dá pra perceber que na TV você se comporta de uma forma e no FB de outra bem diferente, o que me deixou confuso, segundo a ética profissional.
Você conseguiu o que queria, como podemos ver no seu perfil (https://www.facebook.com/renata.barreto2?fref=nf )
seus minutos de fama. Então quero deixar meus parabéns e dizer que se da próxima vez quiser expor a situação com um pouco mais de respeito e menos prepotência, que minha página está a sua disposição. Lembre-se… essa fama é passageira, do mesmo jeito que eles lhe exploraram para me atingir, irão lhe esquecer ou não…
Boa sorte.

FIM DE PAPO.”

Não vou nem entrar no mérito da tentativa de desqualificar a Renata por meio da acusação de que esta buscava fama, até porque ela já era uma profissional com certo nível de exposição em sua área de atuação. O maior problema é que em sua resposta ele também tira a fala da economista de contexto e a distorce. Ela claramente se refere ao contexto de 2013, quando o vídeo foi gravado (sigam o link para ver o vídeo sem o corte feito propositalmente pelo cantor). Ademais, é claro que a inflação pode ser corrigida, assim como qualquer questão econômica. O grande problema é como fazer isso no país dos economistas de botequim? Aqueles que não estão dispostos a pagar o custo deste processo e aguardar a duração destas correções? Para quem se lembra, em 2012 eu mesmo publiquei um texto onde apontava os erros do governo e dizia torcer para que o eles reconhecessem seus erros a tempo. Mas é claro que no país dos economistas de botequim isso não aconteceria.

O importante é que já estamos acostumados a ver este tipo de argumentação apresentada pelo cantor. Este é o padrão típico dos pensadores de botequim. Uma dialética erística focada em ganhar o debate, que fica clara não só pelas distorções que ele apresenta na fala da Renata, como na ampliação daquilo que ela fala e a recolocação de seus argumentos de tal forma a mostrar como se novas evidências, vindas da própria Renata, lhe dessem embasamento. A cereja do bolo vem com o “FIM DE PAPO” no final do texto, típico estratagema apresentado por Arthur Schopenhauer. Não bastasse, indica sutilmente o link para o perfil da economista para canalizar toda a ira de sua massa de seguidores para ela e arremata com uma postagem nos comentários dizendo: “Será que vale o compartilhamento para equilibrar as “verdades”?” Atitude Ardilosa, para não dizer coisa pior.

Mas é aí que entra o grande ponto deste texto. Diferente do que aconteceria com outras pessoas, quando sujeitas à pressão de uma celebridade com mais de 1,7 milhões de seguidores, encaminhando a fúria destes ao seu perfil pessoal, Renata não se intimidou. Ela mandou mais este belo grito de BASTA

4 – Renata Barreto dá mais um golpe contundente no cantor.

“Tico!
Que bom que me respondeu.

Em primeiro lugar, meu texto não é uma dissertação de economia, não é um artigo que publiquei e muito menos uma entrevista. Ao ler seu texto dizendo tantas coisas sem sentido, fui tomada de indignação instantânea e saí escrevendo uma resposta. Estou aqui na pessoa física, dando a cara pra bater. Não represento nenhuma instituição, não sou de nenhum partido e, portanto, me permito um tom mais emocional e acalorado sim. Eu sou humana, não tenho sangue de barata e muito menos acredito que o tom politicamente correto sempre resolva as coisas. Você devia entender disso, visto que já passou por diversas situações em que foi agressivo, até muito mais do que eu e não só verbalmente. Ameaça produtor de não sair vivo de um show e eu, na minha simples ironia e sarcasmo sou prepotente? Ah.. O velho e bom dois pesos e duas medidas.

Honestamente, não imaginei que minhas palavras teriam tamanha repercussão e nem que você as leria. Meu objetivo nunca foi ganhar fama, até porque hoje quem expõe opinião está sujeito à inúmeras coisas desagradáveis, principalmente num país que é retrógrado, machista e com ignorância generalizada. Por vários comentários que recebi, mulher no Brasil só pode expor opinião pra ganhar fama e posar nua. Pois é! Veja a que ponto chegamos, meu caro Tico. Minha zona de conforto poderia ser mantida e eu não preciso de fama alguma para sobreviver com o trabalho que faço, pois, trabalhando desde os 15 anos, aprendi a dar valor a um trabalho bem feito e honesto. Comecei de baixo, nunca ganhei nada de ninguém, batalhei sozinha pelo que tenho e sei que falo em nome de muita gente quando exponho minha opinião. Essa fama, inclusive, pode me atrapalhar, tenho muito mais a perder do que a ganhar e mesmo assim resolvi expor de forma realista e sincera tudo aquilo que efetivamente acontece no país. Meu texto foi um grito rouco de alguém que há tempos tenta alertar para situações que vivemos e onde poderíamos chegar. Eu estou farta.

Para mim, Tico, falta de respeito é olhar nos olhos de um pai de família que ganha um salário mínimo e lhe dizer que não se preocupe, pois o que ele vive hoje é apenas fruto de especulação da grande imprensa. Para mim, deboche é dizer para seus seguidores que houve previsões feitas e que nada efetivamente aconteceu, quando na verdade já estamos numa situação bastante delicada em diversos âmbitos. Falta de educação é querer tapar o sol com a peneira e dizer que está tudo bem, pois já estivemos piores. Esse é o mesmo discurso que o governo adotou, negando a crise o quanto pôde, atribuindo nossos resultados apenas à crise internacional e comparando números entre governos sem levar em consideração conjuntura macroeconômica de cada período e situação anterior. Basicamente fez seus eleitores de idiotas. Prometeram milhões de coisas e fizeram tudo absolutamente ao contrário. Não admitiram seus erros a tempo e por isso nossa situação chegou a este ponto. É por isso que, ao negar os fatos, me sinto desrespeitada como cidadã e acho que é fundamental, falarmos a verdade. Vamos ser realistas?? É assim que se constroem opiniões embasadas e consistentes.

Você continua insistindo em fazer juízo de valor comparando crises, como se o relevante fosse definir qual crise é pior, esta ou a que passamos nos anos 80 e 90. Como eu disse no vídeo, a inflação foi um monstro que nos assombrou por muito tempo e hoje está mais controlada. E sim ela é cíclica. Deu um trabalho danado acabar com a inflação absurda que tínhamos passando por 7 planos econômicos fracassados. Com essa estabilização da moeda conseguida com o Plano Real e o famoso tripé macroeconômico, ganhamos uma economia mais robusta, pouco a pouco. Em 2013, quando gravei o vídeo, a inflação fechou a 5,91%, abaixo do teto da meta, influenciada principalmente por um choque de oferta (aumento do preço dos alimentos). Naquele momento, ela ainda não era tão preocupante. O que temos hoje é uma realidade bastante diferente e, mesmo com juros super altos, a inflação não cedeu e penaliza muito os cidadãos brasileiros. Quem faz supermercado e paga suas próprias contas, sabe do que estou falando. Quem tem pequenos negócios e viu seu faturamento cair drasticamente, não está em uma conspiração com a grande imprensa. Quem perdeu emprego e agora precisa aceitar ganhar menos, não vai viver de otimismo. Você sabia que até itens de primeira necessidade tiveram queda de vendas? Não é porque já vivemos tempos piores, que temos que ignorar o que se passa agora. Com a irresponsabilidade do governo, corremos o risco de deixar para trás vários avanços conseguidos a duras penas. É importante lembrar também que para se fazer justiça social é preciso dinheiro. Se o país mal tem recursos para pagar a própria dívida, como fará investimentos fundamentais em educação e saúde? Acha justo? Com a crise política se agravando, o quadro piora ainda mais.

Outro ponto importante: crise é um conjunto de coisas, não é apenas inflação, que foi a única coisa que você citou na sua resposta. Como eu disse no outro texto, estamos com taxas de juros altas, câmbio elevadíssimo (e atualizar câmbio flutuante pela inflação como foi divulgado recentemente é um erro absurdo), desemprego aumentando, retração do PIB e um rombo enorme nas contas públicas. Não acredita na mídia? O próprio governo fornece esses números. Estamos a um passo de perder o “selo de bom pagador”, chamado de Investment Grade. Sabe o que isso significa? Perda expressiva de investimentos no país, principalmente produtivos, que são os responsáveis por geração de riqueza e de empregos. Vale comentar também que, ao contrário do que muita gente pensa, alguns setores estarem com lucros não significa que não exista uma crise geral. Meu objetivo, ao expor a realidade, não é assustar as pessoas, mas fazer com que elas enxerguem os problemas e possam encará-los de frente. Como tomar decisões, enquanto agente econômico, se não souber o que de fato está acontecendo? Temos alguns anos difíceis pela frente e escolher ignorar a realidade não nos faz mais realizados.

Tico, você é uma figura pública. Sua página alcança milhões de pessoas. Meu desabafo foi um pedido desesperado por responsabilidade nas informações que você passa. Muita gente considera o que você diz verdade absoluta apenas por gostar da sua música, que, embora eu realmente não aprecie, não faz diferença na sua posição. Podemos até combinar um acordo amigável, eu não falo da sua música e você não opina sobre economia. Que tal? Eu não estou preocupada com meus 15 minutos de fama e nem faço questão disso. Para te ser sincera, abdicaria de tudo isso em um piscar de olhos, sinto saudades de ter meu inbox vazio. Estou preocupada, na verdade, que a fama que você tem, assim como a de tantos outros, faz com que sua opinião forme o pensamento de muitas pessoas, que não se dão ao trabalho de questionar se isso realmente faz sentido. Ao ignorar a realidade e passar informações erradas adiante, você não está ajudando ninguém, como pode achar que está. Está alienando cada vez mais pessoas que, em sua maioria, já não tem acesso à informação e conhecimento como deveriam.

Um povo forte, é um povo consciente.

Abraços,

Renata”

Pois bem, o “grito rouco” da Renata fala por mim. Explicita aquilo que há tempos precisamos fazer em nosso país. Precisamos dar espaço aos competentes e não aos profissionais de botequim. Precisamos recuperar a razão na tomada de decisões importantes de nosso país, em detrimento da emoção que move os artistas que se transformam em “pensadores” do dia para a noite. Como bem propôs a Renata logo em sua primeira intervenção… Deixemos aos músicos a música e que a razão e a qualificação possam voltar a imperar em nosso país, livre das pregações “politicamente corretas” dos “pensadores de botequim”…

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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