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Por que meritocracia é fundamental para a sociedade?

Esta reflexão começa, como toda boa reflexão, por uma pergunta… Por que alguém realiza esforço em um dado sentido e repete um dado comportamento?

Pois bem, isto já foi respondido por uma série de áreas do conhecimento que adotam o método científico e, mesmo com procedimentos diferentes, a resposta é sempre a mesma. As pessoas realizam um determinado tipo de esforço na expectativa de receber uma gratificação que atenda a uma determinada necessidade ou conjunto de necessidades. Todo esforço humano é feito com o objetivo de gerar um saldo de benefícios positivo. Os economistas tentam descrever isto em termos de utilidade, a biologia e a psicologia em outros termos, mas o fato é que este é um componente comum de todo e qualquer sistema de motivação à ação, inclusive para a convivência social e para o que nos dedicamos a ofertar à sociedade. Há inclusive pesquisas que mostram que o ser humano, assim como outros seres sociais, tendem a buscar a maximização deste saldo.

Muitos devem estar se perguntando a esta altura o motivo pelo qual alguém estuda ou faz algo visando atender às demandas de outras pessoas se não tem gratificação? Na verdade isto não ocorre. As pessoas dedicam um tempo e um esforço enorme estudando ou produzindo algo para atender às demandas de terceiros, na expectativa de obterem o que é chamado de gratificação adiada. O mesmo vale para cada uma das atividades humanas, como aquele profissional que se dedica em uma empresa, mesmo além daquilo pelo que é pago. A expectativa destas pessoas é que venham a receber uma gratificação posterior, de qualquer tipo, mas que venha a produzir uma grande maximização do seu bem estar que pode ir além da econômica e pode atingir também elementos que compõem as necessidades de ordem maior do indivíduo (estima e auto-realização).

Pois bem… O que ocorre se você gratifica as pessoas da mesma forma, independente dos resultados que ela apresenta à sociedade? A teoria econômica e uma infinidade de pesquisas na área da psicologia comportamental e da antropologia, mostram que ao nivelar a recompensa de todos, independente das contrapartidas, tende a surgir a figura do caroneiro (free-rider). O caroneiro não vai empreender esforço tentando atender às demandas sociais, pois sabe que obterá a recompensa, independente do quanto se empenhar. Mesmo que a recompensa seja baixa, ela ainda maximiza sua utilidade, já que não há sacrifício algum para a obtenção dos recursos, o que torna o saldo automaticamente positivo (é por isso que temos aquelas pessoas que não fazem nada nos trabalhos acadêmicos em grupo).

Pois bem… Os estudos na área de psicologia comportamental e de algumas linhas importantes da antropologia, mostram que com o passar o tempo, estas recompensas, desligadas do mérito (aqui entendido como o retorno que o indivíduo trás à sociedade), fazem imperar o senso de injustiça e ocorrem dois fenômenos. Os que carregam os caroneiros tendem a se revoltar (isto ocorre mesmo com animais) e se mesmo assim o sistema “injusto” persistir, a percepção de saldo negativo no esforço, leva a uma tendência de que todos se transformem em caroneiros o que leva ao colapso do sistema social e econômico daquele grupo, já que todos irão querer pegar carona em vez de contribuir com a dinâmica econômica.

Cabe ressaltar que isto não implica que tenhamos um nível de desigualdade monstruosa, apenas quer dizer que certo nível de diferenciação pela contrapartida dada à sociedade é necessária para garantir a percepção de que o saldo é mais positivo pelo empenho em gerar valor do que pelo não empenho. Somente por meio deste tipo de incentivo que provoca o ímpeto pela recompensa presente e futura é que um sistema socioeconômico consegue prosperar gerando riqueza para todos.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645
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