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Por que as pessoas lutam contra a própria liberdade?

Em tempos de discussões sobre reformas trabalhistas, o clima sempre tende a esquentar, principalmente quando os movimentos que se dizem defensores dos trabalhadores vão às ruas, para pedir pela manutenção daquilo que é responsável pelas próprias mazelas que dizem combater. Este tipo de reação violenta contra qualquer medida anti-populista, como a reorganização das leis trabalhistas, não é exclusividade do Brasil. O vídeo abaixo, de maio deste ano, poderia representar uma das atuais manifestações ocorridas no país, mas mostra a situação da França, em que grupos de vândalos e guerrilheiros urbanos partem para a violência, pasmem, lutando pela supressão de sua própria LIBERDADE.

 

 

 

Mas por que isto acontece? Por que as pessoas vão as ruas lutar para que alguém decida sobre sua própria vida?

Basicamente por dois motivos. O primeiro é que a maioria das pessoas é acomodada, tende a entregar a própria vida às decisões de terceiros, simplesmente para não ter que empreender tempo decidindo por si só. Preferem manter-se infantilizadas e dependentes por toda a vida, a assumir a responsabilidade por sua própria existência. Segundo que, por anos, os populistas, em sua ânsia pelo poder, têm explorado as fraquezas humanas para promover uma doutrinação massiva em toda uma geração de jovens, pregando que a regulação intensiva do estado, nas mais diversas esferas da vida cotidiana, é benéfica para as pessoas e a própria sociedade, independente de todas as provas em contrário.

Eternas crianças são mais fáceis de serem dominadas. A pregação de que as pessoas são incapazes e que alguém deveria escolher por elas o que é bom para elas mesmas, foi vendida como sendo um tipo de proteção benéfica, em todas as esferas. Uma suave mão paternal do estado que substituiria a proteção familiar, quando o indivíduo fosse obrigado a crescer e assumir o controle de sua própria vida, ceifando-lhe a própria liberdade. Diante da comodidade que isso traz, as pessoas simplesmente ignoram a função de dominação que esta abordagem possui, visando a massificação do comportamento, de acordo com as demandas dos poderosos que controlam o próprio estado. Pessoas dependentes, incapazes de decidirem por si só, são alvos fáceis para quem quer impor uma ditadura perfeita, na qual as próprias pessoas lutarão para serem dominadas e controladas, como vemos no contexto atual.

Este não é um fenômeno novo. Antes dos atuais movimentos populistas, Fascistas, Nazistas e Maoistas haviam entendido o poder que este paternalismo tinha no controle das massas e, como sabemos, os resultados foram muito parecidos com o que vemos hoje, com pessoas lutando a favor do próprio sistema que as controlam e que minam suas possibilidades de ascensão e de escolha… Não custa lembrar que os resultados deste paternalismo também foram igualmente desastrosos. A perda evidente das liberdades, levou a uma dinâmica de degeneração da sociedade, visto que as pessoas, em geral, se transformaram em uma grande massa de dependentes, em detrimento dos provedores que se tornaram cada vez mais escassos. A massificação deste comportamento culminou ou com violência contra aqueles que não queriam ser controlados e serem transformados em provedores compulsórios, como nos regimes fascistas e nazista, ou com o pesado declínio econômico, como nos regimes socialistas.

Como exemplo deste tipo de dominação por meio da doutrinação, podemos tomar a própria legislação trabalhista, em destaque nos dias atuais. Nossa legislação trabalhista tem forte influência do regime fascista do Estado Novo de Getulio Vargas, regime no qual a regulação das relações de trabalho foi um grande mote para manutenção do controle das massas. Assim como nos países que tiveram a mesma influência, no Brasil a implantação de tais regulações levou a uma estagnação e/ou declínio na produtividade, associada a desemprego massivo (hoje, cerca de 40% de nossa população economicamente ativa -PEA- está desocupada). Isso porque, a regulação intensiva das relações trabalhistas viola uma série de preceitos econômicos e comportamentais necessários para que haja incentivos para que se estabeleça a cooperação*. Com a elevada interferência, os estímulos que uma organização demandaria para atingir seus objetivos ficam restritos, levando à deterioração do desempenho do sistema pela queda no interesse na cooperação que faz emergir as organizações sociais de produção.

Ao tirar a liberdade do indivíduo negociar sua própria condição de trocas e de trabalho, impondo um modelo de relação econômica “ideal” o estado massifica as relações e inviabiliza a flexibilização dos sistemas de incentivo, levando à queda da complexidade econômica do país, visto que os modelos de negócios possíveis passam a ser cada vez mais estáticos. A proteção serve apenas àqueles que já detém o poder e não precisam mais competir se diferenciando em sua forma de trabalhar ou atuar. As pessoas, em si, perdem a liberdade de escolher quando e onde trabalhar. Ficam restritas às possibilidades impostas pelo estado e dependentes desta estrutura que praticamente lhes determina quando, onde e como trabalhar.

É evidente que isso parece muito cômodo… A massa se sente amparada por ter alguém negociando por ela, mesmo que não seja o ideal que ela gostaria de ter. Não consegue ver que tudo é feito para atender às demandas de grupos que controlam o próprio estado. Até mesmo a tão famigerada carga horária de 8 horas, é uma demanda da indústria que tem nesta carga horária a produtividade ótima de seus trabalhadores, desde a década de 1910. O problema é que esta estagnação paralisa a economia e, dependendo do nível de paternalismo associado a ela, deteriora toda a estrutura socioeconômica, com a queda da motivação dos provedores que não vêm mais sentido em continuar provendo uma sociedade que não lhe traz nenhum tipo de benefício e ainda vem acompanhada da privação de sua liberdade de escolha.

Diante do declínio e da revolta dos provedores, pouco resta a ser feito, a não ser mudar. Mas como mudar depois de ter criado uma massa de acomodados, doutrinados a pensar que só existe relação econômica (inclusive as de trabalho) com pesada regulação e paternalismo estatal? Como mudar diante de pessoas que se acostumaram a pensar que a perda da liberdade é benéfica para elas? Que ter alguém decidindo como e quando trabalhar é uma vantagem social, mesmo que todos os fatos digam o contrário? Como fazer as pessoas entenderem que, na maioria esmagadora das vezes, a regulação é uma perda de liberdade e, como tal, é ruim para elas e para a sociedade, principalmente no longo prazo?

É preciso muita coragem e muita força de vontade, pois, como nos lembra o famoso personagem Morpheus de Matrix (1999), “a maioria destas pessoas não está preparada para despertar. E muitas delas estão tão inertes, tão desesperadamente dependentes do sistema, que irão lutar para protegê-lo”.

* Leiam Chester Barnard: “The Functions of the Executive” (1938) e “Organization and Management” (1948).

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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