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Populismo e a escassez na Venezuela

Hoje a folha de São Paulo publicou uma matéria informando que o índice de escassez na Venezuela atingiu seu recorde em outubro (22,4%). É claro que muitos dirão que já sabiam disso, afinal já temos visto várias discussões sobre a falta do famigerado papel higiênico no país. Mas a novidade é que segundo a mesma matéria, já há produtos essenciais, como óleo de cozinha, com índices próximos de 99% de escassez o que configura escassez próxima da total (100%). Considerando-se que este é um índice oficial, a situação pode ser ainda pior do que o mostrado.

Por mais dramático que seja e por mais que alguns tenham dificuldade de aceitar, isso já era esperado. Diante de um contexto populista a tendência é a deterioração gradual desta situação, até o colapso social do país, em decorrência da ruptura econômica… O tempo sempre mostra que gestão se faz por princípios socioeconômicos e não com populismo. Não se acaba com a pobreza distribuindo dinheiro, não se melhora a vida das pessoas negando a economia, favorecendo os agentes improdutivos com proteção estatal e tratando dinheiro como riqueza. Esta postura é meramente uma máquina de ilusões que dá à população a impressão que a pobreza pode ser corrigida com uma ajudinha de governantes benevolentes que lutarão implacavelmente contra os agentes produtivos opressores.

Entretanto, isso tem prazo de validade, pois como disse em matérias anteriores, dinheiro é pó. A produção que o populismo tanto vai contra, é a essência por trás da geração de riqueza e mais uma vez só precisamos esperar um pouco para a história mostrar os resultados deste tipo de distorção.

Basicamente, conforme as pessoas improdutivas que recebem benesses governamentais começam a comprar no mercado, os bens se escasseiam e o dinheiro perde valor, reduzindo o poder de compra de todos os agentes. Este processo também leva ao declínio da própria produção, já que os agentes produtivos passam a se sentir menos motivamos por sua perda de poder aquisitivo. A psicologia comportamental e a teoria do Agente/Principal, também mostram que esta atitude de recompensar os agentes não produtivos pode levar a uma tendência de acomodação daqueles agentes produtivos que passam a ver a possibilidade de obter ganhos sem ação produtiva associada, agravando ainda mais a situação de escassez.

Como a distribuição de dinheiro não resolve o problema da pobreza, apenas distorce a distribuição da mesma, fazendo com que a mesma quantidade de bens seja disputada por mais pessoas com capacidade de acesso a estes, ela acaba promovendo uma situação de pobreza para a grande massa.

Então como se acaba com a pobreza? A resposta é simples… esquecendo a distribuição do dinheiro e pensando em produção. O problema é que  produção exige sistemas de incentivo que a motivem, normalmente focados em recompensar fortemente o agente produtivo. Este fomento à produção é contrário à lógica populista por dois motivos, primeiro porque vai contra a lógica distributiva que os partidos populistas usam para convencer seus eleitores. O segundo é porque demora. Como a população não vê aquela possibilidade de enriquecimento rápido e fácil, isso não dá votos e na AL o objetivo é o poder pelo poder.

O que me preocupa nisso tudo? Essencialmente é que o mesmo fenômeno que vemos na Venezuela, de desincentivo da produção e de disfunção distributiva, já pode ser visto no Brasil. Em nosso país a deterioração só está sendo mais sutil porque temos mais capacidade produtiva, principalmente no mercado de commodities. Isto tem ajudado a financiar nossa economia. Mas nossos preços já estão tendo que ser mantidos artificialmente, por intervenções como as que vemos no mercado de energia. Nossa balança também já está em desequilíbrio, nosso endividamento subindo a olhos vistos. Todos indicadores claros que o prazo de validade de nosso populismo esta vencendo. A dúvida é se o povo verá isso antes que viremos uma Venezuela.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645
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