You are here
Home > Opinião > O verdadeiro Rio 2016, além do ufanismo da mídia nacional

O verdadeiro Rio 2016, além do ufanismo da mídia nacional

Bem vindos à Rio 2016, mas não se iludam…. Fora dos cercos impostos pelas forças armadas e pela força nacional, ainda reside o bom e velho Rio de Janeiro, uma cidade com uma beleza natural invejável, mas com sérios problemas e dificuldades. Os problemas inéditos que estamos passando nos jogos olímpicos vão desde as vergonhosas piscinas verdes e a falta de comida nos primeiros dias de jogos, até a incapacidade do estado em oferecer condições mínimas de segurança na cidade sede dos jogos de 2016. 

Para ter uma clareza da vergonha que vem sendo a organização da Rio 2016, além do ufanismo da mídia nacional, basta ter a preocupação de acompanhar a mídia internacional. É fato diante da mídia internacional que a organização dos jogos até conseguiu tirar um pouco da expectativa negativa que havia sobre os jogos no Rio. Esperava-se jogos realmente desastrosos. Felizmente, temos conseguido evitar que uma parte significativa dessas expectativas se concretizem. Isso foi feito às custas do isolamento do espaço olímpico e, ainda assim, os resultados de nossa organização estão aquém dos padrões olímpicos que foram estabelecidos em uma série de países.

Logo no início do evento vivemos os primeiros transtornos causados pelo estilo brasileiro de gestão. As instalações olímpicas, inacabadas e sujas, foram um destaque na imprensa internacional. Fato inédito, mostramos ao mundo como lidamos com nossos problemas. Optamos por uma vila olímpica megalomaníaca, extremamente cara, e com execução e planejamento extremamente mal feitos. A ponto de não conseguirmos entregar nem no prazo e nem com a qualidade mínima esperada para atender a um evento deste porte. O mesmo tipo de incompetência no planejamento e na execução pode ser visto também no primeiro dia, quando faltou comida na vila olímpica, para atender aos visitantes.

O problema em nossas piscinas é outra mostra impressionante de incompetência da organização. Uma equipe dedicada a cuidar de piscinas equipadas com o que há de mais moderno, não conseguiu fazer o trabalho que piscineiros de clubes fazem em seu dia a dia. Passamos a vergonha de ter piscinas olímpicas com águas verdes e cheirando mal e, nas “olimpíadas da sustentabilidade”, tivemos que jogar cerca de 3,7 milhões de litros de água fora, por pura incompetência. Não bastasse, revelamos no episódio outras tristes realidades brasileiras, o “mimimi” e o péssimo nível educacional do país, espelhado em nossos péssimos resultados no teste PISA. Características deprimentes, que permeiam grande parte de nossa cultura e ficaram visíveis quando a Rio 2016 tentou transferir a responsabilidade sobre o episódio para a “química” que, no Brasil, deixou de ser uma ciência exata.

Evento de incompetência e descuido similar e que reflete os mesmos problemas, foi visto com a queda da câmera da OBS neste dia 15. Mesmo tendo tido problema anterior com os cabos de fixação, a organização alegou que a câmera não representava risco e se limitou a apenas isolar a área sob a câmera. Evidente, pelos resultados, que até o isolamento foi mal feito, visto que a câmera caiu fora da área delimitada, atingindo duas pessoas que passavam pelo local, fora mais três que foram atingidas pelo cabo. Mais um ícone brasileiro foi mostrado no caso em questão. Um serviço absolutamente mal feito que apresentou problema e em vez de ser imediatamente corrigido, foi submetido a uma gambiarra mal feita que, por sorte, não tirou a vida de ninguém.

Estes foram alguns eventos visíveis que mostraram como o brasileiro pode ser negligente em coisas até pequenas. Mas também tivemos muitos problemas que foram maquiados no melhor estilo do país, como o fato de os projetos de urbanização terem sido substituídos por tapumes, com belos desenhos olímpicos, para esconder dos visitantes a verdadeira cara do Rio de Janeiro. Também tivemos a ajuda do clima para maquiar a verdadeira realidade da Bahia de Guanabara. O vento tornou o nível de poluição aceitável no local, permitindo que nossos visitantes usassem o espaço com menor risco do que aquele que é a realidade do dia a dia do carioca.

Em outras áreas maquiagem está derretendo, revelando problemas que começaram os jogos escondidos de nossos visitantes, mas que são velhos conhecidos do povo carioca. Quando olhamos além da maquiagem que foi feita para “inglês ver”, podemos ver, por exemplo, que estamos em uma olimpíada onde o transporte parece funcionar para parte da mídia, mas só o faz em uma área isolada da cidade e porque a população foi excluída do sistema usado pelos turistas. O que parte da mídia internacional parece estar descobrindo, é que esta não é a realidade da cidade sede e não seria sequer a realidade da estrutura olímpica, se a população não tivesse sido segregada do sistema criado para atender aos visitantes. Quando a qualidade do transporte, fora da área sugerida pela prefeitura, foi colocada em cheque pela mídia internacional, o brasileiro voltou a apresentar seu clássico “mimimi”. O prefeito Eduardo Paes, em um discurso de extrema cara de pau, afirmou que a estrutura é excelente, desde que as pessoas se dirijam às estações destinadas às olimpíadas (aquelas que a população em geral não pode usar). Segundo ele, as pessoas é que estão errando quando saem da zona sugerida, pois além de demorarem muito para obter transporte, também vão atrapalhar a vida do trabalhador em seu dia a dia…

Mas dentre as maquiagens, há algumas que escondem problemas ainda mais graves, como os de segurança… Assaltos e roubos, como os vividos pelas equipes de TV e membros de delegações estrangeiras , são uma rotina no Rio. Os “momentos de terror” que os famosos estrangeiros viveram, são a realidade diária da população carioca que convive com no mínimo 320 roubos de rua reportados a cada dia. Um local onde até agentes da força nacional de segurança são abatidos pelos príncipes do tráfico, que dominam esta terra sem lei, legando à cidade uma taxa de cerca de 16 homicídios por dia. A vergonha fica pior quando nossos políticos começam a falar bobagens, como as ditas pelo Secretário de Segurança do Rio de Janeiro e pelo nosso Ministro da Defesa, que atribuíram os fatos aos visitantes e agentes terem saído da zona segura da Rio 2016.

Basicamente um reconhecimento de que saiu do cerco armado para dar a impressão que existe alguma segurança no Rio de Janeiro, nosso governo não pode se responsabilizar por você. Basicamente uma admissão de incompetência de um governo que não conseguiu combater a violência urbana em uma cidade, quando teve quase uma década para fazê-lo. Um reconhecimento de que nos jogos Rio 2016, as delegações não vieram ao Brasil como convidadas, mas como prisioneiras olímpicas. Da mesma forma que população da cidade é prisioneira de seus condomínios, veículos etc, as delegações devem ficar confinadas nas ilhas de paz, criadas para iludir o mundo acerca da realidade do país sede, em especial da bela Rio de Janeiro. Não podem usufruir de sua liberdade de trânsito, não podem deixar os limites das áreas protegidas, pois fora delas, reina a barbárie e a incompetência de décadas de má gestão e negligência… Incompetência que fica clara até quando olhamos os detalhes da ilha da fantasia, com seus edifícios inacabados, suas piscinas verdes e seus cabos chicoteando pelo ar.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

Deixe uma resposta

Top