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O que o caso da Finlândia pode nos ensinar sobre educação?

Hoje é comum nas discussões sobre educação incluir toda e qualquer experiência finlandesa como sendo uma grande referência para modelos educacionais ao redor do mundo. Discursos como a Finlândia vai adotar isso, a Finlândia vai adotar aquilo, são comuns… Entretanto, o que muitos se esquecem é que o que ela vai adotar ou vem adotando, não pode ser tido como referência de sucesso. A única referência de fato inteligente é o que ELA ADOTOU NO PASSADO E FUNCIONOU. Por isso, trago aqui uma discussão para reflexão sobre quais são as verdadeiras lições que podemos tirar do caso finlandês e o que outros países do mundo podem contribuir para analisarmos a experiência finlandesa.

Primeiro é preciso ressaltar que o melhor momento da educação finlandesa foi em 2000. Desde então, as experiências finlandesas envolvendo ampla liberdade em sala de aula e ausência de provas para mudar de ano, não têm conseguido manter o mesmo desempenho. A Finlândia que já teve a melhor educação do mundo, vem apresentando declínio desde então e hoje amarga um 12º lugar entre os países com melhor educação do mundo. A tendência nos indicadores do país nos últimos 10 anos é de piora recorrente que tem, inclusive, afetado sua produtividade. Ou seja, a princípio, o primeiro indicador que temos é de que as mudanças das últimas duas décadas têm se mostrado muito prejudiciais ao consagrado sistema de ensino finlandês que vem se deteriorando de maneira expressiva.

O fracasso das “inovações” também pode ser visto no próprio desempenho da educação de países que moldaram seus sistemas de ensino, inspirados no modelo construtivista finlandês que envolve ampliação da liberdade em sala de aula e o fluxo contínuo de alunos, independente de resultados em testes de desempenho, como o Brasil. Mesmo se tratando de um país com educação historicamente ruim, onde qualquer mínima mudança poderia ser positiva, o que vimos foi uma degradação significativa da educação que reforça esta percepção de que recursos como estes têm se mostrado mais prejudiciais do que vantajosos para quem os aplica.

Entre próprios alunos finlandeses, há um sentimento de degradação do sistema de ensino e estes manifestam sinais de problemas, já que sentem que não estão tendo aproveitamento adequado, diante das “inovações” no ensino do país. Muitos grupos de alunos argumentam, por exemplo, que a “phenomenon learning” (metodologia baseada em projetos que é a atual vedete do país e tem inspirado vários modelos ao redor do mundo) não deveria ser adotada integralmente, mas como mecanismo secundário de apoio, como é feito no ensino superior de países desenvolvidos, visto que sem uma prévia abordagem tradicional, os alunos se sentem encurralados com os projetos e incapazes de desenvolverem as propostas.

Essencialmente, o sentimento é de que é cobrado dos alunos que façam algo para o qual eles sequer possuem base para desenvolver. Isto os leva a mais confusões do que respostas. Há também a sensação de que este modelo é muito mais lento do que o tradicional, já que cobra dos alunos que reinventem algo que já foi inventado e poderia simplesmente ser transmitido para o estudante, para que ele partisse dali em suas descobertas. A sensação é praticamente como se “voltássemos no tempo e precisássemos reviver toda a ciência dos últimos milênios para redescobrir o que já foi descoberto”.

Diante desta problemática, pesquisadores de Cambridge, como Tim Oates, argumentam que a base que muitos países estão tirando das experiências finlandesas (isso mesmo, são experiência de resultados desconhecidos e preliminares muito duvidosas) pode ser desastrosa, visto que a abordagem só tem sido adotada indiscriminadamente, em decorrência de um histórico que a Finlândia possui de boa educação e não dos resultados efetivos destas metodologias. Entretanto, o pesquisador lembra que este histórico não veio dos novos modelos, mas sim da adoção de modelos tradicionais que construíram toda a fama e desempenho do país. Atualmente, as indicações são, inclusive, que o modelo atual é inferior ao anterior e, pelo ritmo de deterioração da educação do país e de seus índices de produtividade, alguns estimam que estas experiências podem ser desastrosas, como de fato vêm se mostrando em países com experiências educacionais menos sólidas.

Mas qual era o modelo que tornou a Finlândia um país de educação inspiradora?

Basicamente era um modelo vindo da década de 1970, com elementos muito diferentes dos que vemos hoje. Dentre eles, o modelo finlandês que construiu a melhor educação do mundo, tinha decisões centralizadas na escola (que atuava com matrizes independentes), o professor como uma autoridade formal em sala de aula, supervisores presentes em cada sala de aula para acompanhar e disciplinar as atividades dos alunos, testes obrigatórios e muito exigentes, tudo isso acompanhado de grandes investimentos na formação dos professores.

Parece démodé, não? Mas foi esse modelo que construiu os resultados que tornaram a Finlândia uma referência global de educação nos anos 2000. Modelos similares são hoje a base de países como China, Cingapura, Coreia do Sul e Japão. Países que hoje lideram os Rankings de educação, vêm apresentando significativo crescimento no desempenho de seus alunos e também em sua produtividade. Países cujo crescimento econômico e na qualidade de vida de sua população têm sido evidentes, fruto de um modelo educacional bem sucedido.

Diante disso, a grande lição que podemos tirar da Finlândia me parece bem diferente daquela que nossos “educadores” têm interpretado. A educação clássica é démodé, mas foi ela que construiu a educação da Finlândia e vem construindo os atuais líderes na área. Ela pode não ser tão bonita ou inspiradora no papel quanto a última modinha construtivista, mas certamente é muito mais eficaz… Enquanto as últimas “inovações” têm mostrado um enorme potencial para desconstruir, ela simplesmente funciona… Quando percebermos esta importante lição e pararmos de nos preocuparmos em “inovar” pelo “inovar”, quem sabe tenhamos o potencial de alavancar nosso sistema de ensino de forma a termos um país mais rico, produtivo e socialmente justo.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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