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O problema não é o PT. É VOCÊ que deseja a beleza da borboleta, mas tem medo da metaformose

Esta semana marcou uma importante ruptura no quadro político brasileiro. Ao declarar guerra ao PMDB, o PT criou as condições institucionais para que o sistema de regulação instaurado no Brasil voltasse a funcionar, mesmo que aos trancos e barrancos. Aquela estrutura que que permitia aos partidos reinarem soberanos sobre o país, com seus desmandos que permitiram a instauração do maior esquema de corrupção que se tem notícia e que destroçaram a economia nacional, foi corrompida. Isto permite que o sistema de regulação, pautado no equilíbrio dos três poderes, retome sua atuação, mesmo que por motivos diversos daqueles que eram desejáveis.

Contrário ao muito do que foi dito pelos “torcedores de partido” das redes sociais, este foi um passo importante para o reestabelecimento da ordem democrática no país, antes fragilizada pelo esquema do presidencialismo de coalizão que foi forjado no Brasil após a redemocratização e que foi fortalecido durante a era PT. Formato este que permitiu que, além do domínio do legislativo, o partido adquirisse também um forte domínio sobre o Supremo Tribunal Federal, por meio das indicações acumuladas em um longo período sem alternância de poder.

Neste ponto é importante ressaltar, por meio de uma argumentação pautada na ciência sistêmica e no comportamentalismo, o quanto é contraprodutiva a postura de uma série de pessoas que têm defendido, principalmente o PT, por meio de referências ao passado e aos seus acusadores e à forma com a qual a retomada da dinâmica de regulação tem acontecido. Em primeiro lugar é preciso entender que é evidente que o PT não é o único partido corrupto, nem a causa da corrupção, o esquema é fruto de uma articulação que envolve inclusive partidos de oposição. Mas também é preciso reconhecer que o grupo que este partido comandou nos últimos 13 anos foi aquele que explorou, mais próximo do limite, a verdadeira causa… A IMPUNIDADE que reduz o custo da criminalidade, incentivando o comportamento indesejado.

Apesar da forma que ocorreu a ruptura desta estrutura não ter sido eticamente desejável, visto que se iniciou a partir de uma guerra entre os dois principais partidos da coalisão, ela permitiu o início de processos legítimos de regulação contra os líderes do executivo e do legislativo, o que em termos sistêmicos aponta para uma retomada (dramática, é verdade) dos sistemas que já deveriam estar funcionando há um bom tempo. O que o que estamos vendo são dois grupos que formavam uma coalisão, agora divididos, usando seu poder para garantir que o sistema funcione contra o outro de maneira adequada.

Ora, porque isso não seria benéfico?

Só porque no passado alguém fez algo similar? Só porque os acusadores são igualmente corruptos? O fato de Cunha ser o acusador não inocenta Dilma de seus erros (que foram muitos) e vice-versa. O mesmo vale para erros passados. O fato de crimes prescritos de antigos governantes terem ficado impunes, não isenta os crimes presentes daqueles que agora os cometem. Os erros de ambos existiram, foram claros e cristalinos, há provas em abundância destes erros, assim como surgirão provas contra uma série de outros agentes políticos de peso.

Se pretendemos mudar o Brasil, em algum momento essa guerra tem que se iniciar e alguém tem que pagar este preço. Não adianta olhar para trás e dizer: mas fulano fazia… Isso é o mesmo que se justificar por um assassinato, dizendo que há milhares de assassinos que não foram responsabilizados… Imagine a barbárie que se instauraria. No fundo, este tipo de ação passa por compactuar com a perpetuação de algo que pode começar a ser revertido AGORA e Ninguém melhor do que PT, PMDB para serem os exemplos de uma nova era que deverá atingir uma série de grandes partidos que participam ativamente dos esquemas.

Porque digo isso? Primeiro porque são os que foram mais longe, os mais descarados e são aqueles que estão comandando a ação, no momento em que o país começa a pagar um alto preço pela corrupção e a incompetência. Segundo porque são os partidos que dominam os poderes com capacidade de regulação (Legislativo, Executivo e Judiciário). Portanto, apenas um conflito entre eles poderia desencadear as ações de regulação necessárias e é isso que estamos vendo, um conflito onde cada um deles está usando o poder regulador que antes mantinha sob controle para proteger o grupo, para caçar seus oponentes. Isso deverá atingir praticamente todos os grupos envolvidos. Por fim, porque nenhum grupo foi tão icônico em termos de acumulação de poder nos últimos anos, a ponto de subjugar todos os poderes da república. Esta tríade torna estes atores os exemplos perfeitos para os que virão após eles.

Por isso afirmo: Querem um novo Brasil? Querem abrir espaço para o surgimento de um novo grupo de políticos? Então primeiro é preciso assumir um compromisso com a extinção dos velhos caciques, dos velhos modelos… Um a um, em uma ordem que permita que isso ocorra e que desta empreitada surja o fortalecimento das instituições. A melhor forma de fazer isso é derrubando os mais poderosos, eliminando a cabeça da medusa para que ela comece a definhar. Hoje, esta cabeça é representada Por Dilma e Lula e pelo quarteto do PMDB, sendo Dilma a primeira que deverá cair, seguida por Cunha. Ambos de maneira legítima, mas por meios escusos. Com a queda de ambos, os demais caciques, não só dos dois partidos, deverão acabar sendo atingidos, cedo ou tarde. Pagaremos um preço alto? Sim, terá que ser pago, mas este é um princípio do caos, apenas com a destruição completa da antiga dinâmica é que pode nascer uma nova ordem. Você precisa desintegrar a lagarta, para que possa nascer a borboleta e nenhuma metamorfose é limpa, indolor ou bela.

Dito isso, peço que reflitam… Parem de defender corruptos por mera vinculação ideológica. Parem de defender incompetentes comprovados, por mero medo do que possa vir depois. Pensem que este grupo é o primeiro de muitos, o primeiro a testar a tolerância de nossos sistemas de controle em um limite que foi capaz de desencadear um movimento de reação. O primeiro a mostrar uma incompetência capaz de gerar indignação. O primeiro a viver uma indignação capaz de gerar uma guerra interna. Isso deve ser louvado, admirado, incentivado. Deve ser uma inspiração e se tornar o exemplo para os próximos que virão… Para transformar o país preciso reconhecer que esta desintegração é o caminho natural e necessário para uma metamorfose e se queremos ver o surgimento da borboleta, precisarmos aceitar a cruel destruição da lagarta.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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