You are here
Home > Reflexões > Reflexões Econômicas > O país dos economistas de botequim

O país dos economistas de botequim

Hoje, o Brasil vive uma grande crise intelectual derivada em grande parte do fato de termos uma população com capacidade reflexiva nula, mas que se julga especialista em tudo. Temos 200 milhões de médicos que nunca leram um artigo de medicina e receitam remédios como se fossem “doutores honoris causa”, temos 200 milhões de técnicos de futebol treinados pelo Galvão Bueno, temos 200 milhões de Administradores que não sabem como funciona uma organização, temos 200 milhões de economistas que não possuem capacidade de entender o que é a moeda e por ai vai.

No meio destes MILHÕES de “especialistas”, aqueles poucos que dedicaram suas vidas a entender realmente estas questões, sofrem perseguições, toda vez que seu conhecimento, amparado pela racionalidade, vai contra a fé professada pelos milhões de “conhecedores profundos”, formados nos botequins.

Um exemplo que julgo marcante deste fenômenos, é o caso clássico dos super “economistas e gestores” que bradam pelos jornais palavras de ordem, infestam nossos governos e até mesmo muitas faculdades de áreas muito distintas, discutindo e elogiando soluções mirabolantes para os problemas econômicos e sociais. A maioria, quando perguntada, não entende questões simples, como o que é moeda. Se complica, se baseia em uma visão utópica de que o dinheiro é a solução para os problemas do mundo e que a simples manipulação do mesmo resolveria qualquer problema. Não entendem que dinheiro é intangível, é “pó”. Não percebem que ninguém faz nada com o dinheiro, propriamente dito.

Com base nesta idéia, bradam refrães como: “se o dinheiro que é usado com guerras fosse usado para comprar comida, mataríamos a fome no mundo.” Não entendem coisas elementares, como o fato de: o dinheiro das guerras, sendo transferido para a compra de comida, sem compromissos de aumentar a produção de comida, só aumentaria o preço da comida, tornando-a ainda menos acessível àqueles menos abastados. Isto porque, este papel, ou amontoado de Bits, não é nada além de memória de trocas da atividade produtiva.

Quer revolver o problema da fome? É preciso investir no aumento da produção de alimentos, reduzir o desperdício de comida. Apenas o aumento da disponibilidade de comida é que levaria mais comida a mesa de mais pessoas, independente de como se desse a distribuição do dinheiro, propriamente dito. Gerar riqueza não é imprimir moeda ou liberar os compulsórios, é oferecer mais bens.

Este exemplo é marcante, porque vai à raiz de algumas das principais questões que vejo sendo discutidas no Brasil hoje. A distribuição de renda e o problema da inflação. Este último deriva da idéia que para girar a economia é preciso injetar dinheiro para gerar consumo. Bobagem. As relações de consumo ocorrem enquanto há o que trocar. No momento em que a produção se torna pequena para atender à nova demanda criada, há pressão inflacionária e os que recebem o dinheiro primeiro aproveitam e enriquecem, enquanto os que recebem depois empobrecem.

O caso da distribuição de renda passa por questão similar. Tirar renda de um lado e colocar em outro, não enriquece o país. Pelo contrário, com a queda da motivação para a produção, a tendência de longo prazo é de empobrecimento generalizado. Exemplos não faltam… Só na América Latina temos Venezuela, Argentina, Cuba etc. Sem incentivos para aumentar a produção, ninguém vai se motivar a sacrificar seu tempo e seus bens para produzir. Com o tempo, a produção começa a cair… Mesmo que o governo injete dinheiro, a população empobrece, pois o dinheiro tem cada vez menos valor, ao passo que compra cada vez menos bens.

A conta é simples e fácil de entender, para quem quer ir além das crenças forjadas por anos de doutrinação. Mas enquanto os “super especialistas em tudo” continuarem achando que o dinheiro por si só faz a diferença e ficarem presos em idéias simplistas e de curto prazo, estaremos fadados a continuar em nosso caminho de conseguir igualdade por meio do empobrecimento coletivo. A famosa cubanização.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645
Top