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O custo da esperteza

Há uma concordância geral no Brasil de que Políticos são uma classe formada predominantemente de bandidos, independente de partido… O máximo que se discute neste sentido é que alguns são um pouco mais competentes em termos gerenciais, outros são mais gananciosos e praticam roubos maiores, alguns até possuem boas intenção, mas são tão burros que transformam boa intenção em tragédia… Ou seja, no fundo, no fundo há uma concordância entre a grande massa da população que estamos fadados a escolher a menos pior, dentre uma série de alternativas ruins…

Mas o que mais me assusta nisso tudo, é que a culpa é do próprio povo. O comportamento do brasileiro é tão nocivo para o país quanto o dos políticos, se não mais… O Brasileiro é corruptível e comprável com migalhas. Enquanto roubam bilhões de seu bolso, chora por centavos na passagem de ônibus… Reclama do policial corrupto, mas não perde a chance de corromper esse mesmo policial, furar uma fila, colar em uma prova…

Acha absurdo a presença de um flanelinha “ameaçando” seu carro por 2, 5, 10 reais (de fato é absurdo), mas vota em Maluf, Dilma, Lula, com medo de perder as “Boquinhas”… As benesses subtraídas do trabalho de outros para bancar um esquema de medo e ilusões que possibilita manter no poder, aqueles que só visam subtrair o erário em benefício próprio…

O brasileiro é irresponsável…. Não se preocupa com as contrapartidas, não se preocupa com as consequências de suas ações… Até porque, em um país de irresponsáveis, não há consequências para a irresponsabilidade… O brasileiro acredita que o custo de sua preguiça e de sua irresponsabilidade será compartilhado, se não pago por outro, o que não só é aceitável, como justo na visão de nossa sociedade… Alguns acreditam ainda que este custo não existe, o que é ainda pior…

Será mesmo assim? Acreditem…. A irresponsabilidade, a preguiça e a falta de caráter, custam caro para o país e todos estamos dividindo este custo que deveria ser individual… Mas é claro que o preguiçoso, o irresponsável, o indolente vai eleger aquele que o ajude a dividir este custo…. Vai às ruas para dividir este custo. Independente de classe social…

Os que possuem em comum esta visão, normalmente forjada por um falso senso de injustiça histórica ou pior, por uma sensação de culpa de quem “trabalha” por hobby e vive imerso no coitadismo brasileiro, acreditam que o trabalho dos outros deve servir aos seus interesses…. Afinal, ou são “injustiçados”, ou já vivem confortavelmente em seus lares às custas do trabalho de terceiros (papai paga as continhas) e por isso acham certo que tudo seja sempre assim…

Em síntese, o brasileiro é um iludido com a ideia de que “o que é meu, é meu, o que é seu é nosso” é sustentável e acima de tudo justa…

Por isso ele não liga de arruinar o futuro de seus filhos e netos, se para isso puder fazer parte, mesmo que temporariamente, dos “esquemas”… Se aproveitar dos “benefícios”, puder ser corrupto, corruptor, irresponsável e preguiçoso e no final puder dividir a conta de seus erros e sua irresponsabilidade com terceiros… Afinal… “eu errei… mas o que é seu, é nosso…”

A coisa ainda consegue ser pior, pois muitos ainda acreditam que apoiar isso faz parte de uma busca por um bem maior. Fomentam tudo isso, escolhem o pior, em vez do menos pior, escolhem quem alimenta este esquema, enquanto subtrai o dinheiro público em benefício próprio, pela simples crença de que irresponsabilidade, mal caratismo e preguiça são fruto de uma herança social perversa…

De fato são, mas de uma herança social onde as pessoas foram ensinadas que este comportamento é vantajoso. Onde as pessoas foram ensinadas que esforço, não leva a lugar nenhum…. Que “o mundo é dos espertos”… Que a sociedade tem uma dívida com todos nós, mas com alguns mais do que com outros, mesmo que estes nunca tenham feito nada pela sociedade além de a corromper e explorar…

Mera ilusão… Em um mundo onde todos são espertos, todos vivem da “boquinha”, todos acreditam que devem ter direitos sem deveres, ou pior que seus direitos e méritos são herdados, seja por “dívida social”, seja por história familiar, o que teremos no longo prazo é apenas um país onde se procura os culpados por não haver mais “otários” dispostos a pagar “o custo da esperteza”…

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645
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