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O baixo efeito da greve nas universidades federais

Em tempos de greves dos professores é sempre importante refletir o porque dos efeitos delas serem pequenos, se comparados aos de outras categorias…

Essencialmente, as greves de docentes não funcionam no Brasil, por conta do prazo necessário para que as implicações de seu trabalho sejam sentidas.

Uma paralisação de metalúrgicos, ou de caminhoneiros é rapidamente resolvida, porque impacta a sociedade em um curto horizonte de tempo, assim como a baixa qualificação de tais profissionais, que também repercute de imediato no mercado. Como problemas causados por distúrbios nestas categorias aparecem rápido, acabam forçando soluções rápidas e de maior impacto.

Já uma paralisação de professores possui pouco efeito imediato, assim como a baixa qualificação e motivação dos mesmos. Uma greve de professores universitários dura mais de dois meses e, salvo pelos alunos sem aulas, a sociedade como um todo pouco se importa porque praticamente não sente o impacto da greve no momento em que ela ocorre. Por isso não há propostas ou cobranças da sociedade pela solução do problema. A sociedade simplesmente tem enorme dificuldade em perceber, no curto prazo, a enorme falta que tais profissionais fazem e quando conseguem perceber, já faz tanto tempo que houve a paralização que qualquer efeito se torna inócuo.

Contudo a sociedade precisa se lembrar de algo muito importante a este respeito. Da mesma forma que uma paralisação ou um problema em certas categorias é rapidamente percebido, suas conseqüências também podem ser rapidamente revertidas. Com a educação a coisa é muito diferente. Quando o problema pode finalmente ser percebido, a reversão do quadro é muito complexa e demanda muito tempo.

Esta paralisação de dois meses que estamos vivendo nas Universidades Federais, por exemplo, pode custar até 1 ano de disponibilidade de profissionais qualificados no mercado. Pior, este pouco caso que o Brasil tem feito com a educação pode custar décadas para ser recuperado, até que novas gerações se formem com professores valorizados. Indicadores como o declínio que estamos vivendo na produtividade, evidenciam bem o quão dramática pode ser esta situação.

Essencialmente, o Brasil precisa escolher entre cobrar ou não cobrar o estado, de maneira incisiva, sobre a questão da educação, até com paralisações solidárias aos professores e à educação como um todo (a famosa greve geral). Caso a população opte pela retomada da qualidade e da força da educação, ainda assim pagaremos um preço pelo que fizemos até então, mas ainda será um preço possível de ser pago. Não cobrar poderá levar à falência de nossa sociedade, com uma falta maciça de qualificação e serviços de péssima qualidade, em todas as demais categorias profissionais (aquelas cujos problemas percebemos no curto prazo).

A escolha é de todos nós. Reflita…. Você é dos que prefere cobrar por uma educação melhor ou dos que prefere ser atendido por futuros médicos que não sabem calcular a dose de seus medicamentos?

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645
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