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O argumento é simplista: o novo discurso da esquerda

Já faz alguns dias que tenho visto surgir nas discussões sobre textos que acompanho na internet, um novo discurso predominante na esquerda. Uma forma de desqualificação que os desobriga de grandes artimanhas lógicas, algo contra o qual a população em geral já parece estar vacinada… O formato mais comum que tenho visto deste tipo de argumento, quase ensaiado, é o famoso:

“Você não está errado, mas seu argumento é muito simplista“.

Vamos analisar sob a ótica das teorias da comunicação e da dialética erística, como a construção desta frase é ardilosa. Prestem atenção aos destaques… Primeiro que ela começa dizendo que o interlocutor está CERTO, mas sem utilizar essa palavrinha mágica que encerraria a discussão por ali. Segue-se a esta aparente concordância, o golpe… “mas seu argumento é simplista”. O “mas”, diz tudo sobre a intenção da frase, é o gatinho do desqualificador propriamente dito… Entra dizendo algo como: “você não está errado, mas não é uma análise competente…” Em essência, seu “não erro” se transforma em erro por ser “simplista”, parafraseando um dos argumentos que vi na rede, “por tentar expressar algo sem o aprofundamento necessário para que as pessoas vejam a verdade por trás dos fatos“.

Com esta estrutura, nosso caro militante doutrinador se protege de qualquer argumentação lógica que explicite seu nível de ignorância sobre o tema. Isto porque, ele começa com uma negação do erro do interlocutor o que o desobriga de ter que desarticular logicamente a argumentação. Obviamente, isto facilita muito as coisas, principalmente quando se está discutindo com alguém mais qualificado. Ao mesmo tempo, ele não usa a palavra CERTO, que seria a forma direta de dizer que suas afirmações são válidas, já que não precisaria passar pela negação. Não faz isto porque o uso desta palavra, apesar de dizer o mesmo que a negação apresentada, diminuiria a força do desqualificador.

Ao mesmo tempo em que escapa a qualquer necessidade de debate lógico, a frase desqualifica o discurso apresentando-o como simplista. Algo bem interessante, porque é uma mudança na estratégia de uso do ad hominem. Como este último já se tornou uma falácia conhecida e muitos interlocutores já sabem reconhecer, o ataque se volta ao argumento. Mas este ataque não é menos falacioso, já que trata-se de uma mera rotulação do discurso que pode levar à um debate infinito.

Diferente de um rótulo odioso, que normalmente se constitui em um único nó, esta frase, quando colocada em um contexto complexo, possibilita ao interlocutor recorrer a qualquer ponto que não esteja contemplado no discurso, impondo um ar de descuido. Mesmo que o discurso tenha todos os indícios necessários para sustentar suas afirmações e a inclusão de novas variáveis de análise sempre leve ao mesmo resultado, o debate pode se tornar altamente desgastante. Pior, quando usado na frase em pauta, praticamente desobriga o interlocutor a defender seu ponto, já que este “concorda” com sua conclusão e se apega ao caminho usado para a desqualificação.

Então, como lidar com este tipo de argumento?

Essencialmente, essa frase explora dois pontos fundamentais da estratégia de comunicação que são a adequação que a mensagem tem que ter ao canal e ao público que deverá receber a mensagem. Esta frase coloca o interlocutor em um grave dilema, pois cobra do mesmo um aprofundamento em pormenores que poderia levar o texto a uma inadequação ao público ou ao canal.

Um exemplo seria uma discussão sobre economia, onde um interlocutor apresenta argumentos que mostram as eventuais consequências das ações governamentais. Para fazer esta discussão pela Internet, focada no público em geral, dois fatores primordiais teriam que ser levados em consideração. O primeiro é a natureza do canal. A Internet não é espaço para discorrer sobre teses, é um espaço para textos rápidos. O segundo é a natureza do público, que em geral possui poucos conhecimentos em economia e matemática. 

Neste caso, o autor de um texto deste tipo teria que se pautar em dois elementos fundamentais, escolher os pontos chave da discussão, aquelas variáveis fundamentais para sustentar as afirmações, e codificar o texto de uma forma que o público em geral possa compreender. Pois bem, é aí que surge o espaço para o mal intencionado aplicar esta estratégia. Como o texto na Internet é restritivo em relação ao tamanho da argumentação, uma análise sobre um contexto complexo sempre deixará variáveis de fora. Isto possibilita que os mal intencionados usem argumentos, como os que um interlocutor usou em dada situação contra mim, em que me cobrava contemplar as relações de 54 variáveis para explicar um problema cujas conclusões podiam ser mostradas com 10 que apresentavam mais força e explicavam melhor o fenômeno. O mesmo ocorre com relação à codificação, quando o indivíduo te cobra explicitar a parte matemática da discussão, por exemplo, o que tornaria o texto inadequado para o público em geral.

É evidente que explorar este nível de detalhamento provavelmente irá tornar o texto inacessível. Para o mal intencional um resultado até melhor do que a desqualificação, visto que diminuiria significativamente o alcance da mensagem.

Pois bem, o que tenho visto funcionar contra este tipo de argumentação?

A melhor estratégia que vi até então é uma que contempla a seguinte estrutura:

Explicitação da concordância do opositor -> Esclarecimento do porquê cortar variáveis -> Esclarecimento que a inclusão de variáveis não altera os resultados -> Inversão da Escolha.

Algo deste tipo:

Fulano, que bom que CONCORDA comigo e considera CORRETA minhas conclusões. Sei que o tema é complexo e há mais pontos envolvidos, mas adequar um texto para o ambiente na Internet exige que fiquemos focados naquilo que é mais importante para explicar o problema. Já que concorda com as conclusões apresentadas, deve concordar também que a inclusão de novos pontos não as altera, visto que com as variáveis que cogitou, chegou à mesma conclusão. Mas de qualquer forma, fiquei curioso… Caso pudesse usar apenas 1000 palavras para explicar seu ponto de vista sobre este problema, quais variáveis escolheria?”

Porque este tipo de estrutura tem funcionado?

Primeiro porque a primeira frase explicita a concordância presente na primeira parte da frase usada pelo mal intencionado. Se ele tentar contradizer, terá que entrar no debate lógico que tentou evitar e mostrar o porque não concorda com o texto. Mas de qualquer forma, já entra no debate desgastado por ter iniciado em uma contradição. Na segunda frase, é possível esclarecer que as demais variáveis não foram negligenciadas e que esta foi uma escolha deliberada e consciente de alguém que conhece os pormenores do problema. Na terceira frase é explicitado que os pormenores não alterariam os resultados da análise e, por isso, são insignificantes na discussão. Este ponto da estratégia é interessante, visto que o opositor não tem muito espaço para discordar das conclusões pela abordagem inicial, mas somente das escolhas feitas.  Na quarta e última frase, nos aproveitamos da terceira e invertemos a escolha. Isto coloca o interlocutor mal intencionado contra a parede, forçando-o a fazer as mesmas escolhas que você teve que fazer e colocando-o em uma posição onde ele será obrigado a concordar com estas escolhas ou debater logicamente um número bem limitado delas, dizendo os pontos que ele tiraria e o que ele colocaria em seu lugar, justificando tais escolhas.

De qualquer forma, a conclusão seria preservada da dialética erística. Como o objetivo final de um argumentador sério é validar ou invalidar uma hipótese, não importaria a troca de uma ou outra variável na argumentação, que levasse à mesma conclusão sobre a hipótese, principalmente se bem justificada.

Sempre em defesa da razão, fico por aqui e espero ter contribuído para desmascarar mais esta estratégia argumentativa falaciosa que vem invadido as redes sociais, em “defesa da causa”.

 

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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