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Nazismo é Socialismo?

Uma pergunta que sempre surge nas discussões que trazem o nazismo à pauta se refere à classificação do mesmo enquanto um movimento de direita ou de esquerda. Há aqueles que defendem que o nazismo é um movimento de extrema direita, enquanto há aqueles que defendem que o nazismo é um movimento socialista de esquerda, como o próprio nome do partido nazista propunha. Mas qual será a realidade? Seria o nazismo socialismo?
Para esclarecer definitivamente esta dúvida, convidamos uma das mentes do Nazismo, o segundo na hierarquia do partido, o Ministro da Propaganda Joseph Goebbels, para responder:
 
“Por que somos um partido dos trabalhadores? Somos um partido dos trabalhadores porque vemos na vindoura batalha entre o mercado financeiro e o trabalho o fim da estrutura do século 20. E estamos do lado do trabalho contra o mercado financeiro. O dinheiro é a régua do liberalismo; trabalho e realização são as réguas do estado socialista. O liberal pergunta: O que é você? O socialista pergunta: Quem é você? Há um abismo entre eles.”
 
“Tal é nossa tarefa como Nacional-Socialistas. Nós fomos os primeiros a reconhecer as conexões, e os primeiros a começar a luta. Porque somos socialistas, sentimos primeiro as maiores bençãos da nação e porque somos nacionalistas quisemos promover a justiça socialista na nova Alemanha.”
 
“Somos socialistas porque vemos a questão social como uma questão de necessidade e justiça para a própria existência de um estado para nosso povo e não como uma questão para piedade barata e sentimentalismo humilhante. O trabalhador tem direito a um padrão de vida que corresponda ao que produz.”
 
“É uma questão de formar uma nova consciência do estado que inclua todo cidadão produtivo. Já que os políticos do momento não querem nem tem como criar uma tal situação, o socialismo só será conquistado com luta.”
 
A fonte destas afirmações é o: “Die verfluchten Hakenkreuzler. Etwas zum Nachdenken” de 1932.

Mas então por que os Nazistas também não gostavam dos comunistas? Simplesmente porque o socialismo Alemão, adotado pelos Nazistas, diferia do marxista na crença do papel do mesmo no desenvolvimento da sociedade. Enquanto os comunistas acreditavam que o socialismo era um estágio para chegar ao comunismo e que deveria ser superado para se atingir a extinção da propriedade privada, para os Nazistas o socialismo era o sistema perfeito e final, onde um estado forte e centralizado seria capaz de devolver o poder às massas e subjugar o poder dos capitalistas, especialmente os liberais, sem para isso ter que negar o direito individual à propriedade.

O conflito entre Marxistas e Nazistas residia especialmente neste ponto relativo à possibilidade do comunismo enquanto sistema final e no cerne dessa divergência estava o papel do estado em relação à propriedade privada sob o socialismo. Como os marxistas entendiam que o objetivo final era a extinção da propriedade, a proposta marxista para o socialismo era que o estado deveria não só assumir o controle sobre as relações socioeconômicas, mas também a propriedade dos meios de produção, para viabilizar a transição para o comunismo (um sistema onde a propriedade privada não existiria). Já os nazistas entendiam que o papel do estado socialista ia até o limite do controle das relações socioeconômicas, sendo a propriedade estatal desnecessária (mas não proibida, os nazistas estatizaram muitos meios de produção) para atingir seus fins, visto que os mesmos não acreditavam na necessidade do comunismo para estabelecer uma sociedade baseada no coletivo. O que existia sob o Nazismo eram, portanto, propriedades nominalmente privadas, mistas ou estatais que nutriam um elemento em comum: “o controle do estado sobre elas”. Ou seja, no sistema socialista adotado pelos nazistas a propriedade privada não era extinta, mas o controle privado sobre a produção o era, convertendo os proprietários em meros figurantes e o sistema igualmente centralizado no estado e no coletivo.

Tomando-se por base os discursos e ações nazistas, especialmente aqueles trazidos por nomes como Joseph Goebbels e Adolf Hitler, a crença dos nazistas no socialismo era ainda mais forte do que a dos próprios comunistas que viam nele apenas um sistema intermediário e imperfeito, mas necessário para se atingir a nirvana do comunismo. Para os nazistas o socialismo era o sonho final de sua busca por uma nação forte. Um sistema onde o estado era o agente central por trás de todas as relações socioeconômicas, capaz de regular detalhes que iam da produção à reprodução humana, distante da utopia dos comunistas que acreditavam que o ser humano seria capaz de viver em um mundo compartilhado, onde a propriedade se tornaria obsoleta, tornando desnecessária até mesmo a presença do estado.

Onde fica o racismo nesta história? O racismo não é algo inerente ao sistema socioeconômico, mas às crenças que norteiam o senso de superioridade de um povo e é usado como instrumento de manipulação de massas há séculos, nos mais variados matizes. O racismo não pode ser atribuído aos movimentos de direita, de esquerda, liberais, simplesmente porque está presente tanto em movimentos de direita quanto de esquerda, não permitindo que se estabeleça uma relação direta entre o racismo e as ideias da esquerda e da direita para a gestão de um sistema socioeconômico, em especial a relação entre o indivíduo e o coletivo.

O que não se pode negar é que, salvo pelo racismo (que como vimos não é exclusividade de um ou outro lado), o socialismo alemão dos nazistas é análogo em princípios ao socialismo moderno. Não é por menos que discursos como o mostrado acima, ainda nutrem enorme similaridade com os discursos dos partidos socialistas que ainda existem ao redor do mundo. Basta compara-los para ter a certeza sobre a verdade inconveniente que a esquerda tenta sistematicamente esconder. O Nazismo nunca foi extrema direita, menos ainda liberal. Ele foi sim, o representante máximo de um movimento socialista que procurava regular as relações econômicas e sociais por meio do estado, fato que não se refletia apenas em seu nome, mas em todo o conjunto de idéias centrais deste movimento de massas que via no socialismo o estágio final para o estabelecimento de um estado capaz de fazer preponderar o coletivo sobre o indivíduo.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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