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Grécia e sua inevitável ruptura

A Grécia vive hoje um momento decisivo em sua economia, o que chamamos no pensamento sistêmico de ponto de bifurcação. O caminho que o sistema irá tomar em um ponto de bifurcação é imprevisível, mas é possível vislumbrar alguns nuances das alternativas que se formam.

Uma verdade inconveniente que restringe as possibilidades àquelas negativas no curto prazo é que a Grécia está à beira de um colapso em seu sistema financeiro pela falta de divisas. Seu sistema financeiro está à beira de uma ruptura e não são só os pagamentos dos credores que estão em jogo. O estado Helênico não dispõe de dinheiro para arcar nem mesmo com suas demandas internas.

Visando adiar este colapso, o governo grego optou pelo calote de um empréstimo que tinha junto ao FMI e a imposição de um rígido sistema de controle da capitais que limitou o acesso ao dinheiro do povo grego. Mas é importante ressaltar neste momento que as contas não acabaram. No final do mês o governo Grego ainda terá que arcar com mais 3.5 bilhões de Euros que deve ao banco central Europeu, além de salários e pensões, dinheiro o qual não dispõe.

A situação dos bancos gregos não é diferente. Mesmo com as restrições aos saques, definidas pela política de controle da capitais, o dinheiro está se esgotando. Segundo os bancos locais, só há dinheiro para mais alguns dias, mesmo com o limite de saque diário de 60 Euros, imposto aos gregos.

Porque isso acontece?

Este é o ponto. A Grécia, como membro do Euro, não emite moeda. Toda moeda que o país dispõe vem das seguintes fontes: circulação interna, circulação externa e empréstimos. De certa forma isso exige disciplina para que seu ciclo de gastos externos não supere aquilo que você contribui para o meio externo. Acontece que a Grécia não teve e não tem esta disciplina.

Como sua produção é pífia e totalmente insuficiente para manter os padrões de vida dos gregos e estes não possuem praticamente nenhuma produção nacional fora de seu território, como ocorre com os EUA, o fluxo de divisas para fora do país sempre foi maior do que aquele que o país obtinha ao enviar produtos para o exterior. Ou seja, sua balança de pagamentos sempre foi desequilibrada, exigindo recursos externos que só podiam ser obtidos por meio da tomada de empréstimos (que em termos econômicos consiste basicamente em antecipação de produção que o país ainda não teve), já que o país é incapaz de suprir sua própria demanda produtiva.

A presença no Euro ajuda a nos mostrar onde reside o verdadeiro problema do estado Helênico ao passo que a falta de moeda é um sintoma muito forte do mal que assola o país. Em uma situação utópica, em que a Grécia tivesse produção suficiente para suprir o nível de vida atual de sua população, este desequilíbrio na não ocorreria, pois o dinheiro continuaria girando indefinidamente na sociedade. Este ainda aumentaria sua disponibilidade se houvesse exportações maiores do que importações. Entretanto, o que acontece é que, mesmo não pagando os credores internacionais, o fluxo de moeda do país continuará negativo até que se esgote. Isso porque, a balança comercial grega acumula deficits bilionários há mais de 10 anos (veja o gráfico a seguir) que vêm sido supridos exatamente pelos programas de “resgate” da economia grega.

Deficit Comercial do Estado Grego. Fonte: tradingeconomics.com

Deficit Comercial do Estado Grego.
Fonte: tradingeconomics.com

Muito deste problema vem dos gastos desenfreados e das políticas populistas adotadas pelo estado grego que mesmo gastando mais do que arrecada há mais de 35 anos, manteve uma série de regalias, como uma previdência insustentável e um governo extremamente inchado, pelos quais o dinheiro dos empréstimos tomados no exterior eram injetados na economia. Evidentemente isso ajudou a melhorar a vida dos gregos que graças ao Euro estavam conseguindo tomar empréstimos a juros mais baixos dos que lhes seria atribuído fora da divisa comum. Estes, por sua vez, lhes permitiam ter o ingresso de grandes volumes de bens em seu território e consequente aumento do bem estar da população.

Pois bem, entendido isso, é possível avançar na discussão. É evidente que o momento da Grécia é sério. É fato também que os Gregos não querem perder o padrão de vida. Entretanto, também fica claro pelo explicitado que isso vai acontecer, independente dos resultados da negociação. Até o final, ainda pretendo mostrar porque aceitar os termos de mais um resgate poderia ser a melhor saída de curto e longo prazo para o país.

Primeiro é importante entender as consequências de não aceitar as exigências e não chegar em um acordo internacional para o terceiro plano de resgate do país. Se isso acontecer, os Euros irão ser insuficientes, mesmo  para os pagamentos internos e isso deve ocorrer provavelmente próximo do final do mês. Qual a causa para isso? Os Gregos continuam gastando mais do que recebem de fora, ou seja, gastando mais do que ganham.

Para lidar com o problema da falta de divisas os Gregos terão que recorrer a meios alternativos de pagamentos mas que em essência não resolverão o problema real da economia, porque o acesso a bens externos será drasticamente cortado pela falta de divisas capazes de realizar os pagamentos. Ou seja, os gregos poderão ver surgir uma nova moeda que suprirá sua demanda interna por meios de pagamento, mas este novo dinheiro terá um valor decrescente e que comprará muito menos do que compravam antes, visto que os bens externos não serão mais acessíveis.

No fim, a qualidade de vida irá se depreciar, mesmo com a disponibilidade de mais moeda, porque a disponibilidade de bens será restringida. Com isso, mesmo conseguindo pagar os salários com este novo meio de pagamento, o governo se verá em uma situação complicada, pois a qualidade de vida da população deverá desmoronar e os problemas que causam esta pobreza, antes ofuscados pelos empréstimos externos que permitiam ao país manter este fluxo de recursos, continuarão existindo no país.

A baixa produtividade e o grande número de pessoas que não produzem, mas vivem da produção de terceiros por meio do estado, vai continuar empobrecendo o país como um todo. A competitividade dos produtos gregos em um quadro de saída do Euro, até aumentaria no exterior, por conta da dramática perda de valor desta moeda. Mas na prática, a moeda fraca só ajudaria a ajustar a balança, enquanto os níveis de produtos disponíveis internamente continuariam em declínio por conta da impossibilidade de trazer recursos de fora, do baixo volume produzido e do fato da moeda fraca tornar o risco dos investimentos muito elevado no país, tornando o rentismo mais viável do que o investimento, o que comprometeria ainda mais a produtividade ao longo do tempo.

No fim, o governo grego se verá obrigado a fazer tudo o que foi pedido pelos credores internacionais e mais um pouco. Terá que reduzir os gastos de um governo perdulário. A previdência terá que ser revisada, diversos programs sociais extintos e o governo precisará dedicar seus pífios recursos ao aumento da produtividade, isso se quiser voltar a dar a mínima qualidade de vida para a sua população. Ou seja, o povo grego pagará dobrado pelos erros de seu governo. Será obrigado a viver em uma situação de quase miséria e ainda passar por todo o programa de austeridade proposto, se quiser sair desta situação.

E a alternativa? A alternativa passaria por aceitar os termos dos credores que pedem por mais austeridade, em troca de uma reestruturação da dívida que permitiria ao país obter mais um pacote de ajuda para uma transição mais suave e menos penosa para o povo grego em termos da perda de qualidade de vida. Desta forma, o governo grego seria obrigado a antecipar algo que ele teria que fazer de qualquer forma, mas com menos peso, e ainda teria recursos para investir de maneira inteligente, caso aceitasse que a população precisa apertar os cintos e reduzir seu padrão de vida para se adequar à realidade do país.

Se o governo grego ainda usar sabiamente estes recursos, para aumentar a produtividade do país, é possível que este consiga começar uma retomada nos próximos 5 anos, devolvendo qualidade de vida para sua população de maneira menos traumática, por meio dos recursos obtidos em mais um pacote de ajuda. O que o governo grego não pode cobrar dos credores é que estes aceitem ampliar ainda mais a dívida, como defendem, sem que o governo grego saneie suas contas que vêm sendo pagas por empréstimos (e não produção) há algumas décadas.

Por fim, uma terceira via pode vir de Rússia e China, principalmente esta última que poderia praticamente “comprar” a economia grega ao assumir esta dívida. Neste caso a Grécia passaria a estar sujeita ao círculo de influência Chinês criando um sério entrave geopolítico na região. Não seria de todo benéfico para a Grécia, tampouco para o mundo, mas ainda assim seria uma alternativa melhor para o país do que a primeira. Entretanto acredito que esta seja o menos provável dos desfechos para a crise grega, visto que a China será obrigada a lidar com seus próprios problemas ao longo dos próximos meses.

Entenda com um exemplo fácil a crise grega lendo: A Crise Grega for Dummies

 

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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