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Governos e Intelectuais ainda não entenderam as manifestações do século XXI

Os governos e muitos dos intelectuais brasileiros, ainda não conseguiram entender a natureza de um protesto do século XXI. Em uma realidade marcada pela facilidade de comunicação e as relações sociais cada vez mais complexas, as estruturas deste tipo de evento emergem como uma rede orgânica e descentralizada, a partir da crescente indignação coletiva em relação a algum fato cotidiano. Foi assim durante os movimentos de 2013, que culminaram com o impeachment de Dilma, e tem sido assim com o movimento dos caminhoneiros. Movimentos descentralizados, como estes, possuem pautas difusas e crescentes, não há uma ordem metodicamente controlada, uma pauta bem definida ou uma única pessoa que represente esta rede complexa. Ela pode orbitar em torno de várias pessoas ou até mesmo de um sistema de comunicação onde todos são, de certa maneira, anônimos uns para os outros.

Para lidar com esta nova dinâmica das manifestações, o primeiro passo é reconhecer que os processos deste tipo não têm um líder capaz de representá-los com precisão em uma mesa de negociação. Além disso, eles possuem um grande potencial de escalada nas pautas pedidas, conforme novas propostas ou novos atores vão emergindo e sendo inseridos no contexto da manifestação, fazendo com que cada dia perdido, possa fazer surgir novas demandas que os participantes entendem como irrenunciáveis. Evidentemente que não é possível lidar com esse tipo de problema com o modelo de negociação sindical da década de 1970, fazendo uso do tempo e se reunindo com “lideranças” que não representam porcaria nenhuma em um movimento formado por uma rede orgânica de pessoas.

Com a demora em se sanar as principais pautas dos movimentos, novas pautas vão surgindo de maneira orgânica, transformando as negociações em um processo infindável. Cada minuto que perdem tentando achar um líder para negociar, sem que as principais reivindicações vigentes em um dado momento sejam atendidas, permite que o movimento viva uma escalada em suas demandas e até mesmo em sua massa crítica, conforme mais e mais demandas são inseridas, atraindo novos grupos de interesse. Isto faz com que as manifestações ganhem massa crítica e trazem a sensação de que os manifestantes nunca estão satisfeitos.

No andamento destes protestos, muitas associações oportunistas também podem se aproveitar da incapacidade do governo em entender a natureza desse tipo de protesto e podem negociar aquilo que interessa a elas, dando a entender que está tudo resolvido, enquanto não está. Estas entidades se colocam como lideranças de algo descentralizado e, por isso, muitas das soluções negociadas com elas não representam, necessariamente, as pautas desta complexa rede de relações. Mesmo quando as principais pautas são atendidas, os movimentos também podem demorar a esvaziar, por conta da reverberação das pautas emergentes que não foram atendidas e a natureza descentralizada do processo.

Para suprimir os protestos do século XXI, os governos têm que entender que precisam de uma nova estratégia que impeça este  processo de retroalimentação que faz crescer as pautas e a massa crítica deste tipo de movimento. A melhor forma de fazer isso é resolver de imediato as principais pautas, aquelas mais significativas e que deram início ao movimento, impedindo sua escalada. Também é preciso ter o cuidado de não fazer propostas que possam amplificar a indignação, alimentando o surgimento de mais pautas ou atraindo mais pessoas para o movimento. 

A magnitude e as implicações deste tipo de evento deve ser reduzida quando governos e intelectuais perceberem que: vivemos em uma nova realidade, onde as antigas estratégias de “cozinhar” uma manifestação para enfraquecê-la e as discussões com líderes e representantes não possuem efeito significativo; nesta nova realidade é preciso aprender a ouvir a massa e responder a ela de maneira tempestiva e; é preciso fazer propostas que não impactem em outros grupos de agentes que possam ampliar a massa crítica das manifestações.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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