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Dogmatismo ideológico: como ele aprisiona a racionalidade

Em tempos de crescentes discussões políticas, onde a racionalidade pode se perder rapidamente em uma dialética sem sentido, é interessante nos perguntarmos o quão viesada são nossas posições políticas e o porquê é tão difícil convencermos alguém, mesmo quando os fatos e a racionalidade estão a nosso favor?

Em um paper denominado How People Update Beliefs about Climate Change: Good News and Bad News, os neurocientistas Sunstein (Harvard), Bobadilla-Suarez, Lazzaro e Sharot (University College London) procuraram verificar exatamente de onde surgem estas dificuldades e seus resultados não foram muito animadores para aqueles que pretendem viver em um mundo racional. Os pesquisadores perceberam que, exceto pelos moderados que tendem a atualizar suas visões de mundo de acordo com os dados e fatos apresentados, os indivíduos que apresentam viés político muito exacerbado tendem a ignorar fatos que desafiem seus sistemas de crenças, focando sua atenção apenas naquilo que ajuda a corroborar suas idéias.

Em um outro estudo que tem se tornado referência na área (“Ideology, motivated reasoning, and cognitive reflection“), Dan M. Kahan (Yale) descobriu viés similar, mas desta vez, relativo à forma com a qual os fatos são analisados. O autor comparou a capacidade de interpretação de dados científicos em uma situação controle, com aquelas onde uma posição política poderia influenciar a percepção dos indivíduos envolvidos. O que ele percebeu foi chocante. Quanto mais instruídas as pessoas, mais a ideologia tendia a afetar seu julgamento. Em seu experimento, um grande grupo de pessoas que avaliavam corretamente os dados na situação controle, mostrou interpretações exageradas ou seletivas de dados apresentados sobre questões que divergiam ou concordavam com sua posição política. Já nos grupos com pior desempenho na avaliação da situação controle, não era percebido tamanho nível de declínio na capacidade de análise. Ou seja, mesmo indivíduos instruídos ignoram a razão em favor da ideologia, para evitar ter que lidar com o ônus de contrariar os valores compartilhados pelos grupos em que se encontram inseridos.

Em um outro, realizado no Brasil, o professor Pablo Ortellado (Universidade de São Paulo) foi às ruas em 2015, durante as manifestações pró e contra a ex-presidente Dilma Roussef. O pesquisador ouviu as pessoas nas ruas durante este evento e constatou que para justificar suas crenças e se enquadrar nos grupos dos quais participavam, as pessoas tendiam a acreditar em boatos e teorias da conspiração, completamente absurdos e desprovidos de qualquer embasamento técnico ou científico. Os estudos do professor Ortellado ainda não foram publicados em um periódico com revisão por pares, mas vão ao encontro de uma série de outros estudos que vêm sendo realizados ao redor do mundo, como os do próprio Dan M. Kahan.

Estudos como estes reforçam a percepção do grande Carl Sagan, em seu clássico “o mundo assombrado pelos demônios”. Nele, o autor defende que “se formos enganados por muito tempo, a nossa tendência é evitar qualquer evidência do logro. Já não nos interessamos em descobrir a verdade. O engano nos aprisionou. É simplesmente doloroso demais admitir, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados.”

Este quadro é desalentador, é fato. Mas outras descobertas sobre esta problemática, mostram que ainda há esperança. Após uma série de estudos controversos, Broockman (Stanford) e Kalla (Berkeley) publicaram, na prestigiosa revista Science, um artigo (“Durably reducing transphobia: A field experiment on door-to-door canvassing“) que vem causando furor na comunidade científica. Nele, os autores constataram que a confrontação direta tende a fazer os envolvidos reforçarem suas posições, mesmo com evidências em contrário, enquanto uma abordagem positiva, que tenda a reforçar os valores dos indivíduos, tende a ampliar a possibilidade de convencimento.

Na mesma medida, mas por meio de uma abordagem diferente, Carl Sagan propõe que a  racionalidade científica é a vela no escuro que pode orientar levando ao rompimento com esta irracionalidade perpetrada pelos vieses ideológicos. Para o autor, a educação nos princípios e valores da mesma seria o instrumento cognitivo necessário para sustentar a dúvida e a moderação.  Fatores estes, que autores como Sunstein, Bobadilla-Suarez, Lazzaro e Sharot, perceberam nos agentes capazes de avaliar os fatos com maior propriedade. É preciso, portanto, ir além da instrução pautada no conteúdo, mas é preciso ensinar as pessoas conviverem com a dúvida e manterem o nível de ponderação necessário para que a racionalidade possa emergir.

Diante do surgimento de estudos cada vez mais avançados sobre o tema, fica mais claro o porquê das pessoas apresentarem vieses cognitivos tão intensos quando se trata de sua ideologia. Nem mesmo o elevado grau de instrução, antes visto como um pilar de sustentação do pensamento racional, se salva deste nefasto problema. Pelo contrário, a ciência tem descoberto que o ambiente formado por pessoas instruídas também tem se mostrado prolífero para a consolidação de pesados vieses cognitivos que levam o indivíduo a romper com sua própria estrutura de análise lógica. Mas ao que tudo indica, há um caminho virtuoso para que consigamos recuperar a racionalidade em nossa sociedade, pautado nas abordagens positivas e em uma educação para a ciência. Um caminho que tem no compromisso com os fatos e a razão, os pilares para que a racionalidade possa sobressair à ideologia.

Tem dúvida se pode estar preso nesta armadilha? Faça o Quiz “How Biased Are Your Views of the World?” para descobrir.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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