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“Curandeiros”, deixem as ciências sociais para cientistas…

Quando alguém chega para mim e fala que Economia e Administração não são ciências ou que não podem ser tratadas como as áreas das ciências hard, penso comigo mesmo:
“Eis alguém que é incapaz de entender fenômenos complexos ou, ainda pior, o que é ciência”.

Meu filho… não é porque você não consegue fazer as ligações necessárias ou que desconhece o que são princípios que a existência dos mesmos deixa de ser verdade. Tudo pode ser explicado sob a ótica da ciência. Tudo está sujeito a um conjunto de regras fundamentais de funcionamento, independente da complexidade que se estabelece a partir das relações dinâmicas entre estas regras ou dos limites que esta complexidade impõe à sua capacidade preditiva (limite esse que também pode ser estudado sob a ótica da ciência)…

Se algo deixa de ser tratado sob as lentes da ciência se transforma em mero dogma ideológico, incapaz de mudar a realidade de maneira organizada e estruturada. Torna virtualmente inócua a ação humana e o controle do ser humano sobre seu próprio futuro o que já sabemos ser uma enorme falácia… É por essa diferença sutil na forma de pensar que temos nestas áreas conteúdos completamente inúteis, misturados em meio a conteúdos com elevado grau de capacidade preditiva… Simplesmente porque quem pensa que a Administração e a Economia não são ciências e estão isentas de leis e princípios fundamentais, que lhes garantem certa capacidade preditiva, carrega na mera fé ideológica suas esperanças, enquanto aqueles que praticam a ciência nestas áreas conseguem visualizar os fundamentos básicos por trás da cortina da complexidade.

Portanto, podemos dizer que temos nestas áreas dois grupos… Aqueles cuja ação repousa na fé na ideologia que defendem, os curandeiros organizacionais, e aqueles cuja ação repousa naquilo que se conhece dos fatos e princípios fundamentais. Enquanto os primeiros alimentam a imagem na sociedade de que economia e administração são inúteis, os segundos nos dão capacidade preditiva a respeito das conseqüências das ações organizacionais e nos permitem mudar a realidade econômica e social a nosso favor.

O primeiro grupo é mais tentador, porque para ser curandeiro organizacional não precisa de escolas, não precisa de conhecimento, não precisa se sujeitar às dificuldades básicas da ciência. Basta acreditar em seus dogmas, em especial aquele que diz não haver verdades ou a possibilidade de se atingir graus específicos de certeza na área… Já para ser um interventor capaz de mudar a realidade de maneira estruturada, é preciso conhecer princípios, é preciso ir além dos manuais, é preciso fazer ciência organizacional e esta é muito difícil de ser feita, pois envolve a ciência da complexidade.

Para os curandeiros… Posso dizer apenas uma coisa… Se acreditam mesmo nas bobagens que dizem… Se acreditam mesmo que essas áreas não são ciência, não estão sujeitas a regras básicas e princípios fundamentais de funcionamento, então abandonem as escolas e os estudos… São desnecessárias para vocês. Deixem apenas os cientistas, as pessoas racionais, lidarem com o problema nestes espaços voltados à produção de conhecimento…

A área agradece, a sociedade agradece, os administradores e economistas de verdade agradecem…

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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