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Covid-19: A solução

Em tempos de crises globais de saúde pública, os governos precisam tomar ações enérgicas para evitar o colapso de seus sistemas de saúde e do tecido socioeconômico da nação. Com o COVID-19 não está sendo diferente. Enquanto o vírus se alastra, governos de todo o mundo têm elaborado estratégias de contenção, visando evitar que o vírus se espalhe pela população.

No Brasil a estratégia que tem sido adotada é o lockdown horizontal que consiste no isolamento de toda a população, ou da maior parte dela, para evitar a proliferação do vírus. Entretanto, esta medida tem gerado grande controvérsia, pois os impactos econômicos de tais medidas poderiam ser igualmente devastadores, se não piores do que a própria pandemia.

Seria possível, então, conciliar os dois problemas em busca de uma solução ótima que mitigasse os efeitos negativos da pandemia, tanto em termos de proliferação do vírus, quando no que tange ao impacto sobre a atividade econômica?

A resposta é sim e reside em uma ideia que os Romanos já usavam há mais de dois mil anos. Isolar quem precisa ser isolado, ou seja, os doentes e não as pessoas saudáveis. Os doentes já não serão produtivos por estarem doentes, então seu impacto econômico já é irreversível, estando isolados ou não. Já as pessoas saudáveis, quando isoladas, causam um grande impacto econômico que não precisaria ocorrer se encontrássemos formas de isolar exclusivamente os doentes.

O primeiro grande problema que precisamos resolver para implantar esta estratégia é exatamente identificar os doentes. Precisamos ter mecanismo que nos permitam identificar rapidamente os doentes para coloca-los em quarentena, assim como as pessoas que tiveram contato com eles nos dias anteriores ao diagnóstico. Isto exige a produção de insumos para detecção do vírus, uma boa logística e o estabelecimento de uma rede de comunicação eficaz.

O principal insumo para esta estratégia são os Kits de testagem rápida. Já existe no mundo uma série de testes rápidos desenvolvidos e prontos para serem produzidos, inclusive no Brasil. Já é possível comprar esses kits em grandes quantidades no mercado internacional, especialmente na China. Mas se quisermos independência, basta agilizar a liberação destes testes rápidos para um número grande de empresas e uma instrução normativa para que as empresas públicas e privadas, com potencial, produzam grandes volumes destes kits e dos insumos necessários para a sua produção. Com pouco investimento e usando estruturas já existentes (que seriam convertidas para produção dos insumos necessários, teríamos rapidamente uma capacidade produtiva próxima de 3 milhões de kits mês. O governo pode até mesmo usar as forças armadas para produzir tais kits, se for preciso para aumentar a escala necessária.

Mas não basta produzir kits de testagem rápida, é importante que eles também estejam disponíveis rapidamente em todo o território nacional para que a informação sobre possíveis infectados seja disponibilizada de maneira tempestiva. Para tal, o governo conta com os militares, a estrutura de transporte privado e os Correios. Ao organizar essa estrutura, direcionando a ação das Forças Armadas e dos Correios para os pontos de acesso mais difícil, você conseguiria alcançar todo o país.

Com um processo de testagem em massa de sintomáticos, envolvendo sistemas de drivethru, testes em postos de saúde e ambientes públicos e testagem ativa de indivíduos rastreados por meio do contato com infectados, você pode identificar os doentes e, a partir destes, testar as pessoas que tiveram contato com ele ao longo dos períodos anteriores, expandindo a checagem em rede até que se mapeie a localização da maioria dos doentes. Esta estratégia exige menos recursos (inclusive kits) para se chegar aos infectados, inclusive os assintomáticos que seriam testados apenas quando tivessem contato com sintomáticos.

Para facilitar o trabalho de rastreamento, pode ser estabelecida uma regra de controle de presença em estabelecimentos comerciais, obrigando que os estabelecimentos registrem nome, RG, telefone de contato e CPF das pessoas que entrarem no local, com as respectivas datas e horários. Isso permite acompanhar a trilha do vírus e que este vá sendo cercado gradualmente. Se junto a isto for instituído um protocolo de limpeza rígido nos locais públicos, com punição de fechamento definitivo dos estabelecimentos que não cumprirem as determinações, teremos uma eficiência ainda maior dessas medidas.

Fica claro neste momento que a essência desta estratégia se baseia na coleta e processamento rápido de um grande volume de informações, razoavelmente confiáveis. Deste modo, o componente chave de todo este processo seria um sistema de informação ágil e confiável, capaz de trabalhar com uma estrutura fractal, ao mesmo tempo centralizada e descentralizada. Trata-se, portanto, de um problema essencialmente organizacional, onde aspectos de tecnologia de informação, logística, recursos humanos e destinação do parque produtivo, precisam ser articulados para atender prioridades voltadas à coleta rápida de informações.

Entretanto, as zonas de grande aglomeração ainda seriam um desafio para a gestão de informações relativas o rastreamento do vírus. Deste modo seria recomendado que fosse mantido o fechamento de parques, shows e a proibição de aglomerações em espaços públicos. Os estabelecimentos como bares e restaurantes ainda poderiam funcionar, seguindo os protocolos de limpeza e registro de entrada e saída, mas limitados a pessoas sentadas em mesas com espaçamentos definidos, ficando vedada lotação acima daquela estabelecida nas normas para contingenciamento da crise, até que o surto estivesse completamente debelado. Assim se evitaria a sobrecarga deste sofisticado sistema de informação, desenhado para conter o vírus

O segundo grande problema que precisamos resolver nesta estratégia é o da contenção e isolamento dos doentes. Um problema que deve levar em consideração os aspectos culturais do brasileiro.

Mesmo com todo o sistema de informação funcionando, conseguiríamos isolar um número limitado de casos em hospitais e tendas (que também poderiam ser montadas com apoio das forças armadas). Via de regra seríamos obrigados a mandar os doentes menos graves para casa, especialmente na fase inicial da contenção. Nestes casos, precisaríamos criar regras rígidas por meio de alterações na lei de segurança nacional.

Pessoas que descumprissem a quarentena estabelecida em caso de calamidade ou emergência nacional, teriam que estar sujeitas a longas penas de prisão que poderiam ser ampliadas caso o ato gerasse prejuízos ou a contaminação de terceiros. As pessoas doentes que não pudessem ser contidas nas zonas de quarentena, também poderiam ser monitoradas por tornozeleira eletrônica, pelo celular ou por outros meios eletrônicos, aumentando a eficácia das medidas, ao inibir o padrão cultural do brasileiro de ignorar regras.

Quando fosse impossível delimitar as pessoas contaminadas em uma região específica, devido ao grande número de infectados, somente esta região seria bloqueada e colocada em quarentena. Por exemplo: se um dado bairro, condomínio ou conjunto apresentasse concentração elevada de doentes e não fosse possível estabelecer os limites de contaminação, seria estabelecida quarentena obrigatória em todo o complexo até que os quadros estivessem sob controle no local. Neste ponto, o exército e as forças policiais também poderiam colaborar, montando as barreiras de controle nestes locais.

Estas propostas, possibilitam um tratamento cirúrgico para o problema que permite atender com razoável eficácia os dois objetivos que parecem conflitantes em um primeiro momento: reduzir o número de infectados, mitigando impactos econômicos. Com um bom sistema de informação e logística e algo entre três e cinco milhões de testes, esta estratégia permitiria achatar a curva com uma eficácia muito próxima daquela obtida pela estratégia de isolamento social, sem as conseqüências econômicas desta.

Entretanto, estas são medidas que precisam ser tomadas rapidamente, para que o número de infectados não atinja níveis que não permitam mais o rastreamento. O relógio está contando e parece não estar a nosso favor. A imediata adoção destas medidas pode nos ajudar a passar por esta crise melhor que outros países que estão optando pela força bruta em detrimento da inteligência, mas se as ações das instâncias de governo continuarem lentas e desconectadas, como parecem estar, podemos estar fadados a conviver com pior dos dois mundos: uma pandemia matando milhares de pessoas, seguida de uma crise econômica de proporções épicas.

Obs: Texto escrito com base em informações de 21 de março de 2020.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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