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Como uma seita de “Cientistas” destruiu a credibilidade da ciência?

Uma das grandes discussões que permeiam as redes sociais brasileiras hoje, diz respeito à importância da ciência e as justificativas para seu financiamento por meio de recursos públicos. Para os cientistas e pesquisadores a importância da ciência é evidente. Entretanto, o Brasileiro médio tem se mostrado incapaz de perceber a importância da ciência. Não percebe que anda de carro porque um dia alguém estudou o vapor, não entende que usa um celular porque um dia alguém estudou uma faísca ou uma agulha virando em condições estranhas, não entende que cura doenças porque alguém estudou uma planta ou animal desconhecido e assim por diante.

É bastante claro que quando colocado nestes termos a ciência manifesta sua importância, mas por que essa importância é tão dificilmente percebida pela população nos dias de hoje? Onde a ciência brasileira errou para ganhar a aversão das pessoas comuns? O que os cientistas (aqueles de verdade) podem fazer para transformar essa realidade e mostrar para a população em geral (aqueles que pagam a conta) a importância da ciência real e o que vale a pena ser financiado pelo trabalho destas pessoas?

O primeiro passo para isso é entendermos a origem do problema.

Vivemos há algum tempo em um ambiente onde foi permitido que lixo ideológico fosse misturado e comparado à ciência, como se fossem a mesma coisa. Isto desconectou a ciência nacional da realidade objetiva e minou sua credibilidade diante das pessoas comuns que são incapazes de distinguir a boa ciência desta fraude intelectual que se instalou infiltrada entre os cientistas de verdade. 

O subjetivismo que foi gradualmente implantado nas ciências humanas e acabou se espalhando por outras áreas do pensamento, não passa de anticiência, uma tentativa de impor valores e percepções pessoais ao pensamento objetivo. Uma forma vil de dar um atestado de científico a valores totalmente subjetivos. Esta visão dominou o espaço acadêmico em várias áreas e fez as pessoas perderem a referência da ciência e de sua importância, ao passo que desconectou a ciência de seu principal objetivo que é dar sentido ao mundo.

Esta experiência que representa exatamente o antagonismo à ciência, se valeu da credibilidade da própria ciência para vender valores e construir narrativas infundadas. Com o tempo, minou a credibilidade dos cientistas ao passo que as pessoas comuns, que antes se beneficiavam da ciência, acabaram vendo seus próprios valores contestados de maneira pouco ou nada fundamentada por valores vendidos sob a assinatura de ciência. Valores que, por sinal, nem sempre tinham efeitos práticos positivos para a sociedade.

Este pensamento prestou, portanto, um desserviço a todos os cientistas sérios do país que dedicam seu tempo a desvendar os segredos da natureza e da sociedade para dar uma vida melhor às pessoas. Hoje, todos acabam sendo colocados dentro do mesmo saco: os cientistas de verdade e; os anticientistas que se misturam com estes em uma estratégia vil de desqualificação do pensamento racional e imposição de valores. Neste contexto, onde a imposição de uma agenda ideológica voltada à imposição de valores se confunde com ciência, quem perde é a ciência que acaba tendo sua utilidade prática contestada .

E como podemos mudar isso?

O primeiro passo é mostrar a distinção clara entre cientistas e esta verdadeira seita de anticientistas que se travestem de cientistas e se misturam aos cientistas. O segundo passo é mostrar a diferença entre o pensamento racional e o subjetivismo. Mostrar que o subjetivismo não passa de um mecanismo de imposição de valores que é antagônico à objetividade prática da ciência. O terceiro passo é isolar os infiltrados que fazem da “assinatura científica” um meio para doutrinar e dar sustentação a valores e percepções pessoais. Isso implica em mostrar para a população claramente quem é parte de cada grupo e mostrar que o segundo grupo não é composto realmente por cientistas, mas por pessoas que exploram a pouca credibilidade que ainda resta à ciência depois que este processo se iniciou.

Por fim, é preciso entender que os infiltrados ainda são maioria em várias áreas e a subjetividade dos sistemas de avaliação para concessão de financiamento público permite que estes financiem seus próprios projetos ideológicos em qualquer que seja o matiz político. Esta situação cria uma sensação de que o dinheiro público é mal usado por cientistas e faz com que as pessoas comuns, aqueles que pagam as contas e possuem pouco contato com a ciência para saber distinguir boa e má ciência, comecem a resistir em ver os resultados de seu trabalho aplicados na produção de justificativas para contestar e dar um ar de inferioridade aos seus valores.

Para mudar este quadro é preciso criar mecanismos objetivos de financiamento, que não precisem passar pelo crivo de outros “cientistas”. Mecanismos que devolvam à ciência nacional a sua independência em relação a valores compartilhados e permitam que a população veja os recursos que produz serem usados para construir conhecimento real que seja aplicável para transformar a vida e a sociedade de maneira positiva, independente dos valores compartilhados por esta sociedade.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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