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Ciência e religião: espaços até então distintos.

Hoje me deparei com uma frase do biólogo britânico Richard Dawkins que vai ao encontro de muitas das discussões sobre a interferência da religião no processo educacional. Diz o autor:

“Não devemos respeitar crenças que influenciam a vida de crianças e que vão contra conhecimento dado como consenso na comunidade científica.”

Não que eu concorde com ele em tudo o que ele defende, até porque não sou ateu como ele, mas em muito eu creio que ele tem razão. Tenho muito claro que a ciência é um caminho que constrói percepções muito mais claras do que os dogmas religiosos. A ciência nunca provou que Deus existe ou que Deus não existe, por isso ainda me permito acreditar em Deus. Mas a ciência já explicou com bastante precisão, muitos dos fatos que nos cercam.

Acreditar que a mulher veio de uma costela do homem e que o mundo tem apenas 10.000 anos chega a beirar o ridículo diante do contexto contemporâneo. Só posso entender a ampla difusão de algo assim, como uma forma de compreensão da realidade que atende aos anseios pessoas limitadas, incapazes de compreender a lógica sofisticada que permeia as explicações científicas acerca do tema.

Os líderes religiosos, como formadores de opinião, deveriam se alinhar a esta importante questão social. Entender que a ciência não nega Deus, apenas nos dá um panorama mais claro de sua mente, caso ele realmente exista. Por isso defendo que a religião tem que conseguir se adaptar a ciência, a fé em um Deus tem que se adaptar a ciência, pois as conquistas da mesma são plenamente evidentes em nosso dia a dia e existindo um Deus, a ciência é o caminho, até hoje, que nos levou mais perto da forma que este Deus pensa. 

Livros como Genesis, são lindos de se ler, mas não são, nem de perto, uma representação fidedigna da dinâmica histórica de nosso universo. São pura ficção da antigüidade. Ensinar isso às crianças, como um fato é um absurdo que só nos causa retrocesso. Uma aberração que de fato deveria ser combatida.

Como a ciência nunca se propôs a falar seriamente sobre a existência de Deus, a escolha entre acreditar em um ser supremo ou não, ainda é algo que consigo entender e acredito que possa ter seu espaço na sociedade. Mas a crença em explicações arcaicas, para temas já amplamente discutidos pela ciência moderna, é uma aberração que julgo inaceitável, vindo de pessoas preparadas e minimamente inteligentes. Acreditar em absurdos escritos há milhares de anos, por homens que dispunham de bem menos informação acerca do universo do que dispomos hoje, é uma aberração lógica totalmente despropositada. É confiar sua compreensão a respeito do mundo àqueles que não dispunham de mecanismos adequados para entendê-lo. 

Que fique claro que não digo isso no sentido de negar a religião, mas de colocar a religião no lugar que lhe cabe e deixar ao sistema educacional o papel exclusivo de templo da ciência. Nossas crianças deveriam ser ensinadas a pensar, a buscar a processar racionalmente o mundo e não a receber tudo embalado em pacotes mais palatáveis, a serem aceitos em nome da fé ou da ideologia. As pessoas precisam usar a inteligência que lhes foi concedida, refletir sobre aquilo que recebem para transformar o mundo e a própria religião.

Com isso eu não defendo a ausência de fé. Sou um cara de fé. Mas para o bem do mundo que nos cerca, devemos deixar para a fé, os assuntos que são da fé e para a ciência os assuntos que lhes cabem.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645
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