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Brasil: Do Luxo Ao Lixo

Em novembro de 2009, em meio à crise dos subprime, o mundo vivia um caso de ardente paixão com o Brasil. A pesada exposição dos mercados americanos e europeus aos “títulos podres”, associada à robustez do sistema bancário brasileiro e à aparente eficácia que as políticas anticíclicas, aplicadas pelo governo Lula, vinha tendo até então, conferiram ao país um papel de destaque positivo nas discussões ao redor do globo. Talvez o momento mais icônico desta boa fase que tivemos, seja simbolizado pela famosa capa do jornal (em formato de revista) britânico The Economist, que retratava a “decolagem” do Brasil rumo ao posto de 5ª maior economia do mundo.

Capas da The Economist (Novembro de 2009 e Setembro de 2013, respectivamente)
Capas da The Economist (Novembro de 2009 e Setembro de 2013, respectivamente)

Em meio ao frenezi em que vivemos neste período, quando os olhos do mundo se voltaram para o país e a confiança era crescente, nos esquecemos de um detalhe importante… Paixões fulminantes, como as que o mundo teve pelo Brasil neste período, normalmente são mais circunstanciais do que fundamentadas e costumam durar pouco. Para que o relacionamento persista de maneira saudável, é preciso cultivar atributos capazes de gerar vínculos duradouros.

Alertamos desde 2010 que isto não vinha sendo feito por aqui. Em especial, em Julho de 2012, escrevi um artigo em meu blog pessoal que tratava exatamente do nosso desprezo a estes atributos e os impactos que isto teria para o Brasil no médio e longo prazo. Entretanto, vivíamos em nosso luxo e arrogância, como se nossas ações que provocaram a paixonite do mundo pelo Brasil, fossem sustentáveis, para não dizer, brilhantes.

Não demorou muito para que a realidade viesse à tona. Logo após as manifestações de rua de 2013, o mesmo The Economist publicou outra de suas famosas capas, com o cristo redentor mergulhando de cabeça e se perguntando se havíamos estragado tudo. Começava aí, o fim do caso de amor entre o Brasil e o mundo. Após um 2013 onde as preocupações com a sustentabilidade das políticas adotadas pelo país começavam a aflorar, vivemos um ano eleitoral em 2014 que representava um típico final de relacionamento… Cheio de acusações, mentiras e preocupações.

O sobe e desce das bolsas, acompanhando o cenário eleitoral do país, mostrava claramente que a paixão e a paciência que o mundo vinha tendo com o país, havia acabado. Aquele Brasil que vinha tentando ganhar a atenção do mundo com manobras insustentáveis, não convencia mais. Construído com dinheiro de commodities e resistente à crise financeira de 2008, mais pela solidez de seu sistema bancário do que pela gastança desenfreada das políticas anticíclicas, o país se viu em uma encruzilhada intransponível, quando o frenesi das commodities veio ao fim.

No final de 2014, com a vitória de Dilma Roussef nas eleições presidenciais, o mundo escancarou o que muitos por aqui já sabiam… O Brasil que vinha vivendo no luxo, por meio da expansão de seu mercado consumidor, sustentado porcommodities e benesses governamentais, era na verdade insustentável. A lua de mel com o Brasil chegava ao fim. As contas públicas mostravam um cenário desalentador, a corrupção endêmica de nosso governo estava escancarada para o mundo, a liberação dos preços administrados dava novo fôlego a um antigo vilão e a conta da gastança dos períodos anteriores começava a chegar, ameaçando ainda mais a nossa já esquálida economia.

A verdade nua e crua se escancarou. Aquele país cujos representantes andavam feito um pavão emplumado pelos corredores da ONU, se entitulando líderes de uma nova potência global, apresentou sua verdadeira face… Com instituições frágeis e economia ainda pior, governo se voltou contra governo, governo se voltou contra população e, pior, a população se voltou contra a própria população,… Conforme nos lembrou há alguns dias o Financial Times, o Brasil está vivendo em um filme de terror sem fim. Um filme de terror pautado em questões políticas e econômicas que podem ter pesados impactos sociais.

Não é por menos que o mundo todo já espera nosso rebaixamento pelas agências de risco internacionais. Conforme nos lembra tristemente a coluna de Kenneth Rapoza na Forbes de hoje, estamos perto de voltar ao nível de lixo novamente. Este rebaixamento é um ponto de consenso tão sólido que o próprio governo brasileiro, conhecido por seu otimismo descabido, também já dá como certo nosso rebaixamento.

Mas apesar dos custos que isso deverá ter para nossa sociedade, desta vez podemos ao menos tentar tirar algo de bom de tudo isso… Este choque de realidade pode dar ao brasileiro a importante lição de que, como dizia Milton Friedman, “Nãoexiste almoço grátis“. Podemos usar este momento, para fortalecer no povo desta bela nação, a percepção de que economia não é espaço para brincadeira e que tudo o que você recebe em um dia, precisará ser pago em algum momento, ou por você ou pelas próximas gerações.

Posso até estar sendo muito otimista de pensar algo neste sentido. Mas é uma esperança que mantém viva em minha mente a idéia de que a próxima vez que estivermos vivendo no luxo, não precisemos fazer deste, o caminho para o lixo.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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