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Bolsonaro não é a raiz do ódio é a planta que brotou daquilo que a esquerda semeou

Tenho visto muitos veículos, “pensadores” e pessoas comuns, especialmente articuladas com os movimentos de esquerda, atribuírem a Bolsonaro a culpa pelo clima de ódio que tem se instalado no país. Esta não poderia ser uma distorção maior da realidade e ao longo deste texto vou recuperar uma cadeia de eventos que mostra porque o ódio surge, na verdade, da postura ditatorial dos movimentos da esquerda nacional que são de longe os principais responsáveis pelos eventos desastrosos que vivemos hoje no país.
Para entender exatamente o que acontece hoje, inclusive o próprio Bolsonaro, temos que retroceder algumas décadas no tempo. Esse clima terrível que temos no Brasil hoje, vem de bem antes da emergência do fenômeno Bolsonaro, de uma época em que nem se falava nele. Vou mostrar que Bolsonaro é, por sinal, fruto desse clima belicoso e não seu criador, que ele entrou em cena como o defensor daqueles que se sentiam ameaçados pela agressividade dos movimentos de esquerda que vinha se acirrando ao longo dos anos 2010.
Para começar este texto voltarei lá na redemocratização (nos anos de 1980). Lá vamos encontrar um clima de revanchismo bem complicado e, de certa forma, parecido com o que vemos hoje. Quando foi criada a lei da anistia o objetivo era exatamente acalmar os ânimos e dar uma pacificada no país para que ele pudesse se recuperar. Foi basicamente uma pá de cal no que terroristas e governo militar fizeram. Algo como: “Esquecemos o que os dois lados fizeram e todos seguem suas vidas a partir daqui”. Acontece que só um dos lados conseguiu de fato colocar uma pá de cal, entregar o poder e seguir em frente. Uma parte significativa do outro lado não se conformou com uma saída pelo meio e continuou trabalhando em sua guerra particular pelo poder.
Logo depois da redemocratização, movimentos de esquerda, liderados especialmente por PDT, PT e PC do B, voltaram a fomentar rachas e a alimentar críticas a parcelas da sociedade que não compactuavam com seu projeto de poder e suas idéias sobre o país. Ainda durante a década de 1990, se você pesquisar, verá surgir um movimento de demonização da classe média, de empresários, com discursos de ódio cada vez mais evidentes no meio dos movimentos fomentados pela esquerda. Essa é a estratégia básica dos manuais de doutrinação, estabelecer um grupo adversário para construir a figura de um líder carismático que pode guiar os oprimidos contra este cruel adversário que os oprime. A esquerda, em especial o petismo, soube aplicar muito bem esta estratégia.
Ao longo dos anos 2000, com o plano de poder do PT, isto se acirrou, inclusive com os atos que visavam colocar em cheque a lei da anistia, mas fazendo isso só contra um dos lados, visto que agora não estavam mais no lugar de oprimidos, mas de opressores. Durante um bom tempo o revanchismo foi manifesto nestes moldes, de reescrever a história e construir um clima de conflito capaz de perpetuar o PT no poder por ao menos duas décadas (este era o objetivo inicial de Lula). Um plano que rapidamente ganhou ares que poderia ser extendido por um período ainda maior, por meio da máquina de propinas que se instalou nos governos petistas.
Enquanto a máquina funcionava de acordo com o planejado, o clima de revanchismo era mantido sob controle apenas para garantir um bom discurso eleitoral. Entretanto, com iminência de colapso desse plano de poder, ainda durante o governo de Dilma, o clima teve que ser mudado e a violência contra grupos específicos, que ameaçavam o poder petista, tomou outra dimensão, do nível das vistas no ápice do controle nazista no pré-guerra alemão. 2013 foi um marco neste sentido e as peças mais importantes na construção desse ódio foram os folhetins doutrinários (especialmente Brasil 247, O Cafezinho, DCM e Revista Fórum) que surgiram neste período para atacar alguns grupos oponentes e propagar na íntegra, os discursos inflamados de Lula e outros líderes e “pensadores” da esquerda, destacando pontos que ressaltavam o racha social. Um dos marcos desse período foi um discurso de Marilena Chauí (sim, ela foi um marco importante na escalada de violência) que, entre outras posturas absurdas, decretava aos seguidores da doutrina petista que “a classe média é violenta, fascista e ignorante”. Para quem não lembra, ainda no início de 2013, eu já falava que estes discursos estavam sendo usados para plantar o ódio e um racha irreversível, em nome da doutrinação ideológica que pretendiam construir.
É importante notar que até então não se via uma resposta de nenhum grupo e nem mesmo a emergência do pensamento de direita no Brasil. Pelo contrário, o país estava apenas demonstrando fadiga com relação ao petismo e suas propostas e os movimentos eram, até então, pouco ideológicos e muito mais focados em uma reforma do ambiente político. A população estava apenas se mostrando saturada com o que vinha acontecendo. Mas esses discursos regados de agressões cada vez mais violentas e declarações carregadas de muito ódio, fez com que fosse aceso o estopim de um contramovimento.
Em 2014 este fenômeno escalou a um nível realmente preocupante. O Brasil terminou 2014 completamente dividido, com a esquerda apregoando ódio sistemático, com discursos que sugeriam que se fuzilasse os adversários e coisas do tipo, enquanto o outro lado começava a difundir novas idéias e atacar todo o ideário de esquerda que fora metodicamente implantado nas cabeças dos brasileiros ao longo de vários anos. Mas o importante ressaltar que, até então, só se via ódio do lado da esquerda. Era à esquerda que estavam os movimentos que descambavam em quebra-quebra, que atacavam movimentos oponentes, que vociferavam palavras de morte e de ódio… foi nesta época, inclusive, que foram proferidos vários discursos de ódio contra a “Elite branca paulista”, o inimigo até então. Este termo foi usado, inclusive, pela ex-presidente e pelo próprio Lula em várias oportunidades, quando queriam denegrir a imagem da população paulista, a que mais sentia os efeitos negativos do petismo… Neste momento, diante do racha, o contramovimento começava a ganhar uma força expressiva e o país já se encontrava rachado, com liberais e conservadores se sentindo profundamente ameaçados pela simples possibilidade da esquerda assumir o poder. Mas ainda assim, se voltarem naquele período, verão que os discursos de ódio ainda eram bem incomuns nestes movimentos, diferente dos discursos da esquerda.
Neste ponto é importante ressaltarmos o papel de Bolsonaro neste período. Onde ele estava nesta época? Se você voltar lá atrás, verá que ele mal existia, nem se falava dele. Em 2014 Bolsonaro ainda era um ninguém com apenas 12 mil seguidores na WEB, aparecia em uma ou outra passeata, mas só chamava a atenção daqueles que pediam intervenção militar no país. Se procurar notícias dele em 2014 não vai achar nada muito além de discussões sobre seus votos para deputado, porque ele era um cara que falava coisas que pouca gente queria ouvir, até então.
Mas em 2015 a coisa começa a mudar. Com a perda de espaço da esquerda, cada vez mais expressiva, e o crescimento dos movimentos conservadores e liberais, o discurso de ódio e a estratégia de dividir para conquistar ganha uma nova roupagem, muito mais belicosa do que aquilo que era feito até então. Uma série de intelectuais e políticos de esquerda começam a falar em fuzilar e matar opositores que são contra o governo. Alguns exemplos relevantes, só naquele ano: Mauro Iasi sugeriu fuzilar os brasileiros de direita e que o lugar dos conservadores era uma boa cova; João Daniel, deputado petista, falou que derramariam sangue se Dilma caísse; Chauí, com seu famoso discurso dizendo que odiava a classe média, aplaudido por Lula com um grande sorriso no rosto; o próprio Lula ameaçando colocar o exército de Stédile nas ruas para lutar contra o que eles chamam de fascistas, mas na verdade são movimentos liberais e conversadores que não têm relação nenhuma com o fascismo que eles mesmo praticam.
Até então você não via esse tipo de discurso nos movimentos liberais e conservadores. Era uma exclusividade da esquerda. Os movimentos de direita ainda tinham foco em uma defesa mais institucional. Entretanto, com com a crescente ameaça, algumas excessões começam a surgir neste período. Entre elas, um Bolsonaro ainda tímido que explode no final de 2015, defendendo combater as ameaças na mesma proporção em que elas eram feitas. Se você tomar o histórico, verá que foi só neste período (onde o desespero levou os movimentos de esquerda a ampliar o discurso de ódio a um nível insuportável) que começa a surgir um movimento contrário, um pouco mais disposto a ir às últimas consequências, mas mesmo assim, ainda dentro das trincheiras institucionais.
Bolsonaro surge surfando na divisão que já havia sido criada e não foi por ele, como pregam alguns dos que tentam distorcer a realidade em nome dos ideais doutrinários. Ele surge acenando para a classe média e os estados do Sul e Sudeste como um defensor dos mesmos, diante do ódio que a esquerda propaga com relação à quem produz. Ele surge como o populista que se aproveita do medo do outro lado, de que a esquerda consiga finalmente fazer tudo o que prometeu contra a classe média e as forças produtivas do Sul e Sudeste. O ponto que a esquerda quer esconder com toda essa conversa é que a força de Bolsonaro reside exatamente no discurso de ódio da esquerda e não no dele.
O problema se torna ainda maior ao longo dos anos seguintes, porque a coisa não parou por aí. 2017 e 2018 foram anos de ataques intensos da esquerda contra qualquer um que se colocasse no caminho de seu plano de poder. A máquina de doutrinação funcionou a todo o vapor após o Impeachment de Dilma e o discurso de ódio, os rachas, os conflitos, ganharam outro nível de intensidade.
Para exemplificar esta escalada podemos recorrer: às ameaça de Lula a Moro que foram vistas como uma afronta institucional; à ameaça de Lula à liberdade de expressão daqueles que discordam da esquerda; às ameaças ao TRF4 por conta do recurso de Lula; às sucessivas afrontas institucionais do PT, que continuam a todo vapor na eleição; aos discursos da nova Chauí (Márcia Tiburi), agredindo sistematicamente os adversários políticos da esquerda; à Gleisi Hoffmann (líder do maior partido de esquerda), convocando a militância para o combate, e afirmando que seria necessário matar gente para prender Lula, dentre outras barbaridades; à deputada Benedita da Silva que desde 2017 tem convocado a militância nos congressos petistas para derramar sangue contra o “Golpe”, ela fez isso em várias oportunidades, por sinal, e chegou a afirmar que “sem derramamento de sangue não há redenção”. Enfim… Apesar de serem sumariamente ignoradas as barbaridades são muitas.
Basta um breve olhar no passado para ver que não foi Bolsonaro que plantou ódio. Bolsonaro nem existia enquanto agente relevante, quando o ódio foi plantado e a era da internet nos permite comprovar isso com facilidade. Foi a esquerda, que é antidemocrática e quer permanecer a todo custo no poder, que fez este trabalho sistemático ao longo dos últimos anos… destruiu a unidade nacional e ajudou a criar um país completamente dividido, o qual ela acreditava controlar a maior parte. Bolsonaro não é a semente do mal é um dos frutos inesperados deste trabalho da esquerda. Ele nasce enquanto agente relevante, daquilo que a própria esquerda plantou. Ele ganha força conforme a própria esquerda o rega e quanto mais desesperada ela fica ao se afastar do poder, mais ela tenta controlar pelo ódio e pela doutrinação e, portanto, mais ela planta e rega figuras como Bolsonaro que nada mais são do que o reflexo das próprias atitudes destes movimentos.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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