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Asas de um sonho: o museu da TAM e as escolhas do Brasil

O dia era 17 de Junho de 2012 e com um grupo de amigos eu adentrava pela primeira vez no “Museu Asas de um Sonho”, situado na cidade de São Carlos. A espantosa coleção de aeronaves, cuidadosamente alojadas no maior museu do tipo, mantido por uma cia aérea, brilhava com uma bela curadoria e uma estrutura de dar inveja a muitos museus de primeiro mundo. Me lembro de termos saído maravilhados com o que havíamos visto naquele enorme galpão no interior de SP, cuidadosamente organizado para proporcionar uma experiência única.

Após esta visita, voltei ao museu (mantido pela TAM) em mais algumas oportunidades, a última delas no dia 27 de Dezembro de 2015, quando levei minha namorada para conhecer esta notável peça cultural brasileira. Confesso que fiquei surpreso, mesmo sabendo o que a situação econômica e financeira do país não estava boa. O Museu, antes sempre cuidado com muito esmero, ainda estava muito bonito e organizado, mas se via que seu brilho havia se apagado. Os pequenos descuidos com a estrutura, a pintura desbotada, mostravam que aquele belo museu, de padrão internacional, estava agonizante.

Nossa visita não foi menos divertida por conta disso e o brilho no olhar dos visitantes, em especial as crianças, ainda era evidente. Mas quando vi as condições do museu, não pude deixar de expressar minha preocupação para minha namorada. Lembro-me de falar: “Este museu não era mal cuidado assim antes, a crise deve te-lo atingido em cheio, só espero que consiga sobreviver”. Mal sabíamos o que estava por vir… Foi uma ilusão inocente de minha parte. Afinal cultura de verdade e educação nunca foram prioridade neste país. Foi absolutamente infantil imaginar que um museu sobreviveria à uma crise de proporções épicas, em um país onde as prioridades passam longe daquilo que realmente importa.

Belo exemplar do Constellation com a pintura da Panair.
Belo exemplar do Constellation com a pintura da Panair.

Pois bem, pouco mais de 1 mês depois de minha última visita, aquele que era chamado carinhosamente de “Museu da TAM”, sucumbiu à crise. Segundo nota da empresa, veiculada neste dia 01 de Fevereiro de 2016, “a decisão está atrelada ao acirramento dos desafios econômicos do país, provocado pelo aumento da inflação e pela alta do Dólar em relação ao Real, resultando numa desaceleração do setor aéreo. Este cenário demonstrou a necessidade de um estudo interno de viabilidade econômica do museu, que deverá ocorrer ao longo deste ano”.

Ou seja, mais uma peça cultural inestimável do país que se soma a uma longa lista de museus fechados por tempo indeterminado, aguardando condições para voltar a operar, se é que um dia estas voltarão a aparecer. Mas é importante notar que esses museus são mais do que vítimas da maior crise econômica já vivida na história republicana do país, como expresso no comunicado da empresa… Também há em curso, uma grande crise cultural…. ou melhor… uma notável crise de percepção da sociedade brasileira que tem levado à uma inversão de valores, onde se sacrifica aquilo que é importante para a formação ética, cultural e cognitiva de um país, em detrimento de um pão e circo desvairado.

Esta realidade não é restrita apenas aos menos instruídos. No Brasil ela atinge a todas as esferas da sociedade, mesmo aqueles que se julgam mais cultos e preparados do que os demais. Um exemplo que ilustra esta enorme deficiência vem do próprio caso dos museus… Nem mesmo pessoas que moravam ao lado desta peça cultural notável, visitavam o “Museu da TAM”. Muitas pessoas ditas cultas e até instruídas, gastavam seu dinheiro em cerveja, festas e noitadas, mas achavam caro ou difícil se deslocar 3Km para viver a experiência cultural que o museu oferecia, ou pior, muitos sequer se importavam em tentar conhecer o excelente trabalho que uma Cia privada havia desenvolvido, em pró da manutenção da cultura da aviação em um país que é um dos berços da aviação moderna. Simplesmente acham que museus são “chatos” ou não se importam com a experiência cultural de seus filhos.

Esta triste realidade do país não se limita aos museus. As universidades, escolas, nossa música e nossa cultura, tudo está sucumbindo em um rebaixamento a níveis quase tribais, em busca da justificação de prazeres momentâneos. Em essência, uma troca da realização e do futuro, pelo prazer imediato e superficial, representada nas escolhas que fazemos diante dos momentos de crise. Pois bem… O carnaval está chegando e assim que a festa acabar a realidade vai bater em nossas portas, precisaremos escolher qual o caminho seguiremos para construir o país dos nossos sonhos. Você já parou para pensar por que país lutará, assim que a festa acabar? Já parou para pensar quais as atitudes e iniciativas que você deve ter com relação ao mundo à sua volta para atingir estes objetivos?

Eu torço para que nossos museus de ponta possam reabrir e ser valorizados, torço por um país onde as universidades e escolas se transformem no foco do investimento público e privado… Torço por um país onde a a cultura e a ciência se tornem o centro da sociedade e o orgulho de nossos filhos e netos… Se você pensa como eu, que tal começar levando sua família para visitar aquele museu bem ao lado de sua casa?

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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