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A crise Grega for Dummies

Tenho visto muitas discussões atualmente sobre a questão da crise Grega. Uma grande massa de pessoas culpando o sistema financeiro internacional e bradando palavras de ordem, pela vitória do não ao acordo com os credores internacionais.

Pois bem, me parece que as pessoas não entenderam bem o que foi a causa da crise Grega, quem foram os verdadeiros culpados e as consequências devastadoras que o fim do crédito podem ter a Grécia, em uma situação onde ela não tem recursos para garantir o funcionamento de seu sistema econômico. Visando a ajudar o entendimento, vou recorrer ao exemplo da família Estelionatopoulos, para facilitar… Notem que se trata de uma simplificação metafórica, com valores fictícios, para facilitar o entendimento da dinâmica que quase se tornou um sistema Ponzi de dívida do Estado Helênico.

Imaginem a seguinte situação. A família Estelionatopoulos tem uma renda de R$ 1200,00 por mês em uma família de 4 pessoas. Eles estão vivendo uma vida miserável, até que um banco chegou a eles e falou: Ok, você está em uma situação difícil, sua casa e suas finanças estão em frangalhos… Vou te emprestar R$ 215.000,00 para você arrumar sua vida OK? Vou te dar uma carência, e esta dívida vai ter um juros tranquilo de 0,3% ao mês. Depois da carência, você começa a pagar os juros e uma pequena amortização para não te pesar. Mas gaste com sabedoria para que este dinheiro se reverta em resultados futuros capazes de honrar a dívida e melhorar sua situação ao longo do tempo, tudo bem?

O Sr. Estelionatopoulos responde: “NOSSA, QUE MARAVILHA. OBRIGADO SEU BANQUEIRO, VOCÊ VAI SALVAR NOSSA VIDA… PODE DEIXAR QUE GASTAREMOS COM SABEDORIA”.

Pois bem, o que o banqueiro e qualquer pessoa de bom senso espera? Que a família Estelionatopoulos vai manter seu padrão de vida, mas vai pegar esse dinheiro e investir em algo que lhe renda mais do que 0,3% ao mês. Quando terminar de pagar, poderá ter uma qualidade de vida bem melhor do que tinha antes.

Pois bem, o que a família do Sr. Estelionatopoulos fez. Não injetou esse dinheiro em sua produção, mas em consumo. Basicamente, em vez de viver um padrão de vida de quem ganha R$ 1200,00 e investir o dinheiro, passou a viver um padrão de vida de quem ganha R$ 3600,00. Isso, obviamente, gerou uma sensação de riqueza muito cativante, A família ficou muito feliz vendo o grande salto que teve na qualidade de vida, aplaudiu o maravilhoso gesto do Sr. Estelelionatopoulos, mas como todos já começam a perceber, esta é uma falsa riqueza, já que a renda da família continua sendo de R$ 1200,00. O que eles estão fazendo é consumir o dinheiro do empréstimo, para melhorar momentaneamente sua qualidade de vida.

Os bancos viram e começaram a cobrar mais responsabilidade do Sr. Estelionatopoulos… “EI VOCÊ… VOCÊ NÃO ESTÁ USANDO O EMPRÉSTIMO PARA SAIR DO BURACO, MAS PARA APROVEITAR A VIDA, ISSO NÃO VAI DAR CERTO…”

Obviamente, o Sr. Estelionatopoulos ignora, afinal são banqueiros sujos… Eles têm muito dinheiro e finalmente a família dele está tendo uma boa qualidade de vida e reconhecendo a qualidade de líder insuperável do Sr. Estelionatopoulos.

Aí o dinheiro começou a acabar e os juros (mínimo que o Sr. Estelionatopoulos havia se proposto a pagar) vieram, mas ele continuava ganhando apenas R$ 1200,00 e os Juros passam os R$ 645,00. O Sr. Estelionatopoulos pensou: “COMO VOU PAGAR ISSO? É IMPOSSÍVEL, MINHA FAMÍLIA VAI VIVER NA MISÉRIA.

Então ele decidiu ir ao banqueiro e falar: “MEU CARO, NÃO TENHO COMO PAGAR. PRECISO DE MAIS AJUDA, CASO CONTRÁRIO NÃO PODEREI HONRAR A DÍVIDA. ATUALMENTE SÓ MEU ALUGUEL E MINHA CONTA DE LUZ DÃO MAIS DO QUE R$ 1200,00.” O Banco, com medo de tomar um calote e perder seus recursos, recalcula os riscos e decide emprestar mais R$ 50.000,00 para o Sr. Etelionatopoulos, mas desta vez com um juros um pouco mais alto, afinal ele já representava um risco maior para banco. Além disso, o Banco, temendo o mal uso deste dinheiro, fez o Sr. Estelionatopoulos assinar um COMPROMISSO que este reduziria seus gastos com aluguel e energia e usaria este dinheiro para ir pagando os juros e tentar melhorar suas receitas para, assim, conseguir pagar sua dívida.

Pois bem, O Sr. Estelionatopoulos ignorou o compromisso e continuou vivendo como se ganhasse R$ 3600,00. Se não bastasse usar o empréstimo para manter o padrão de vida que sua família vinha tendo, ele também usou o valor que tinha tomado para ir honrando o empréstimo anterior, aumentando assim o custo de sua dívida, sem melhora nenhuma em seus gastos e suas receitas.

Quando se viu novamente sem dinheiro, este processo se repetiu e isso ocorreu diversas vezes, até que o Banco pensou: “MEU, NÃO DÁ PARA CONTINUAR EMPRESTANDO DINHEIRO PARA ESSES CARAS DESSE JEITO, VAMOS ACABAR SÓ AMPLIANDO O PREJUÍZO, PORQUE ELE NÃO FAZ NADA PARA MELHORAR SEUS GASTOS E SUAS RECEITAS, APENAS VIVE DOS EMPRÉSTIMOS…”

Então, quando o Sr. Estelionatopoulos chegou ao Banco pela enésima vez, dizendo que não teria como pagar o empréstimo e precisava de mais dinheiro, o Banco lhe falou: “MEU CARO, NÃO VAMOS MAIS EMPRESTAR DINHEIRO A NÃO SER QUE VOCÊ FAÇA UMA VERDADEIRA DEVASSA EM SUA FAMÍLIA, VOCÊ VAI TER QUE SE MUDAR PARA UMA CASA MENOR, VENDER SEU CARRO E COMEÇAR A ANDAR DE ÔNIBUS, DISPENSAR SUA DIARISTA, DESATIVAR SEUS APARELHOS DE AR CONDICIONADO E PARAR DE COMER FOIE GRAS.”

O Sr. Estelionatopoulos responde ao Banco: “PARAR DE COMER FOIE GRAS TUDO BEM, AGORA O RESTANTE NÃO ACEITO PORQUE COMPROMETERIA MUITO A QUALIDADE DE VIDA DA MINHA FAMÍLIA.” O Banco obviamente insiste na importância dessa revisão dos gastos, afinal ele não quer mais continuar só pagando a conta da família Estelionatopoulos, que continua com sua renda minguada de R$ 1200,00… O banco está até disposto a ajudar na transição, mas ele quer que o Sr. Estelionadopoulos arrume suas contas com urgência. No final o Sr. Estelionatopoulos fala ao banco que a decisão em aceitar coisa tão estapafúrdia será da sua família e ele vai levar ao caso à votação.

Ao chegar em casa ele conta o acontecido, prepara cédulas e uma urna e pede para que cada membro da família vote se devem ou não aceitar a redução de gastos imposta pelo banco. Obviamente, ele lembra a família dos impactos dos cortes de gastos e sugere aos membros da mesma que votem um sonoro NÃO, para que ele mostre ao banco que sua família não compactua com a proposta.

Resultado, a família votou não, como era de se esperar. Todos os endividados em situação similar, saem gritando palavras de ordem pela coragem que o Sr. Estelionatopoulos teve de dar calote no banco “malvadão” e “injusto”. Mas só há um problema que ninguém está considerando… O Sr. Estelionatopoulos continua ganhando somente R$ 1200,00 e somente seus gastos com aluguel, energia e diarista superam os R$ 2400,00, fora os outros gastos que somados a estes totalizam mais de R$ 3600,00. Portanto, mesmo que decida não pagar a dívida, ele ainda ganha apenas 1/3 do que tem de receita e terá que reduzir o padrão de vida de sua família, quer queira ele, quer não. A diferença, é que agora, não poderá contar com a ajuda para a transição, tampouco para tentar aumentar suas receitas.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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