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A cartada dos grandes bancos

Nesta terça, dia 20 de Dezembro de 2016, o Banco Central do Brasil deverá decidir sobre as novas regras de cartão de crédito. Nestas regras uma merece especial atenção, a mudança dos prazos de pagamentos aos lojistas que deverá (se aprovada a medida) mudar de 30 dias para 2 dias. Esta mudança merece destaque porque ela afeta brutalmente um dos mais bem sucedidos modelos de negócios financeiros da atualidade e deverá tirar vários players de cartão de crédito do mercado… Há quem ache que foi uma ótima idéia e que comprou o argumento governista de que isso será bom para lojistas e consumidores, visto que os primeiros não precisarão mais antecipar recebíveis, diminuindo seus custos…

Será mesmo?

Bom, primeiro é preciso entender a dinâmica de funcionamento dos cartões de crédito para entender como isso impacta em cada agente. Hoje, os compradores pagam suas faturas em média 26 dias depois da compra realizada e existe um GAP de mais 2 dias para repasse desse dinheiro para poder efetuar o pagamento dos lojistas. Pois bem, este GAP é preenchido todo pelo repasse deste prazo para o lojista que pode optar por antecipar esses recebíveis com juros (em um banco que tenha este serviço) ou não. O problema dessa nova medida é que ela força os cartões a realizar o pagamento em 2 dias (prazo praticamente operacional e mantém o GAP de 26 dias entre o prazo médio de recebimento das faturas de cartão e as transações… Esses 24 dias de antecipação acabam sendo o grande ponto de toda a discussão, afinal, quem vc acha que vai pagar os juros desse dinheiro?

Está certo quem falar: “O LOJISTA E O CONSUMIDOR”. Ou será que alguém realmente acredita que esses 24 dias médios de GAP entre recebimento e pagamento serão dados de graça pelos bancos?

É bem provável que não, meus caros. O que deverá acontecer aí é que os custos de antecipação deverão ser repassados para TODAS AS TRANSAÇÕES com o aumento gradual das tarifas sobre transações. Ou seja, mesmo lojistas com caixa, passarão a pagar esses custos de “antecipação” que agora irão recair sobre todos os lojistas. Obviamente isso também será repassado para o consumidor e como é proibido diferenciar compras com cartão, das compras com outros meios de pagamento, nós também seremos afetados diretamente, independente da forma de pagamento escolhida.

De quebra, como não são todos os emissores que possuem disponibilidade de caixa para realizar este tipo de antecipação, muitos terão que abandonar o mercado, principalmente porque as mudanças de tarifas não serão viáveis de imediato. Players com modelos de negócios muito favoráveis ao consumidor (como o Nubank) estão entre a lista de instituições afetadas, para não falar dos próprios varejistas que já atuavam como emissores para melhorar as condições para seus próprios consumidores. Basicamente, o que estamos vendo é um dumping proposto e operado pelo governo (não que eu fique surpreso com isso).

Trata-se de uma jogada simplesmente brilhante do grande oligopólio bancário… Em resumo, o que estamos vendo são os grandes bancos, com capacidade caixa para antecipar recebíveis, usarem a queda inicial de rendimento nestas transações para atuar como dumping, destruindo os emissores concorrentes que estavam dando trabalho, mas não possuem esta disponibilidade de caixa para fazer tal tipo de antecipação… Bancos que poderão ajustar progressivamente as tarifas sobre transações para compensar esse GAP e ganharão ainda mais dinheiro, visto que agora todos terão “antecipações de recebíveis” embutidas em seus pacotes de contratação. Neste meio, vários lojistas vão festejar sem perceber que no final são eles que vão ter que pagar a conta do dumping dos grandes bancos para destruir a concorrência, da qual eles mesmos podiam fazer parte (como já faziam), independente destes lojistas precisarem ou não de antecipações…

E o consumidor???

Ahhhh, o consumidor…. Vai se perguntar porque os produtos ficaram mais caros diante de uma medida tão inteligente de permitir que ele continue pagando em 30 dias, enquanto os bancos são obrigados a pagar em 2.

No final, apenas um grupo ganhou com este esquemas e todos os outros perderam. Afinal, estratégia é coisa ignorada por aqui, por isso que essas coisas funcionam sem ninguém se dar conta do tamanho daquilo que estão plantando… Já sabem quem foram os ganhadores? Uma dica… É o único tipo de grupo empresarial que ganha e festeja com a mão do estado na economia….

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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