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A armadilha da nova matriz econômica

A reconstrução econômica do Brasil teve início a partir da década de 1990, em especial no governo do ex-presidente Itamar Franco, quando este iniciou a construção de um plano de combate à inflação que viria a domar os preços, até então descontrolados.  Mas o grande salto que possibilitou a expansão da economia brasileira se deu, já com a inflação controlada, no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando este passou a utilizar como política básica da gestão econômica do país o tripé macroeconômico, delimitado por: responsabilidade fiscal; sistema de metas de inflação; e taxa de câmbio flutuante.

Este tripé permaneceu sólido, manteve os preços sob controle e a economia em crescimento sustentável, até a segunda metade do ano de 2008, quando o governo do então presidente Lula, passou a utilizar os bancos públicos para lidar com a crise dos subprime. Por meio do fomento ao consumo, amparado por uma ampla expansão do crédito, principalmente de origem estatal, o ex-presidente Lula garantiu um crescimento acima da média mundial durante a segunda metade de seu mandato, mas estava ali, plantando a semente de uma armadilha econômica.

Diante do bom resultado que as políticas de Lula apresentaram durante a crise de 2008, assim que assumiu seu governo no ano passado, Dilma Rousseff decidiu por intensificar o uso desta política desenvolvimentista, instituindo o que foi denominado de “Nova Matriz Econômica”. Esta nova abordagem macroeconômica, rompeu definitivamente com o tripé macroeconômico que havia caracterizado a evolução sustentável da economia brasileira até o meio do segundo mandato de Lula e instituiu mecanismos de expansão fiscal (estímulos), crédito abundante a juros subsidiados, taxa de câmbio controlada e protecionismo à indústria nacional.

Neste momento muitos devem estar se perguntando… Ok, mas se o país vai indo bem, então qual é o problema?

Pois bem. Assim como a isca de uma armadilha pode provocar satisfação momentânea, esta injeção de adrenalina da economia brasileira se mostrou positiva até então. Acontece que já vimos esta “Nova Matriz Econômica” antes e os cenários que estão sendo costurados para o Brasil, mostram que podemos ter sido colocados em uma armadilha econômica.

Em certa medida, os resultados de Lula e deste início de governo Dilma, obtidos por meio da expansão do crédito e da proteção da indústria nacional, vieram porque o Brasil vem bem. Sua economia encontra-se robusta e bem estabelecida e a indústria vinha em franco crescimento até 2008, principalmente pelos bons resultados que o Brasil tem tido com a venda de commodities. Em um primeiro momento, a inclusão de novos brasileiros no marcado de trabalho também alimentou o crescimento do PIB e permitiu o aumento da renda média. Com a instituição da expansão do crédito e da “Nova Matriz Econômica”, o número de empregos só fez crescer o que é de certa forma positivo. 

Entretanto, estes resultados têm prazo de validade, principalmente quando combinados com outras políticas, inclusive sociais, que vêm sendo implementadas pelo governo PT desde então.

Para compreender a armadilha que os governos de Lula e Dilma Rousseff vêm construindo para o país, é preciso entender inicialmente a essência por trás de uma relação econômica. Quando se fala em economia, muitos pensam automaticamente em dinheiro. Sob a ótica de que o dinheiro é o combustível da economia, muitos observam as ações distributivas e de fomento ao consumo do governo, como um excelente mecanismo de promoção do desenvolvimento do país. Todavia, não é de dinheiro que se trata a economia e sim dos mecanismos de regulação de trocas e produção de bens. O dinheiro em si não se constitui em riqueza, tampouco em equivalente de riqueza. O grande combustível do motor econômico é a produção de bens. A moeda, como temos hoje, é um mero lubrificante de trocas que atua como memória de crédito produtivo.

Para aumentar de fato a riqueza de um país é preciso, portanto, aumentar a disponibilidade de bens para que estes possam ser distribuídos. A mera existência de mais dinheiro ou a redistribuição desse, não coloca mais comida na mesa da população, nem carros em sua garagem, tampouco tetos sobre suas cabeças.

Pois bem, o que acontece quando eu dou crédito fácil a alguém?

Em essência, ao fazer isso você está colocando mais dinheiro no mercado, mas não mais riqueza no mesmo, provocando um descompasso entre o que é produzido e a disponibilidade de lubrificante de trocas utilizado (vulgo, dinheiro). Como a indústria brasileira já está próxima do limite de crescimento por meio da inclusão de mão de obra, a única forma de corrigir esta distorção por meio da indústria local, seria o aumento da produtividade. Mas há uma série de gargalos de médio e longo prazo que precisariam ser vencidos para isso. Primeiro que o setor energético brasileiro encontra-se próximo de seu limite; segundo que nossa logística encontra-se sucateada; terceiro que nossa mão de obra é extremamente mal qualificada.

O resultado da incapacidade de resposta rápida da indústria nacional à demanda emergente é que este descompasso é sanado por meio da compra de produtos importados, financiados em grande medida pela exportação de commodities. Contudo, além de gerar um risco elevado de desequilibrar a balança comercial em um dado momento, isso tem um duplo efeito colateral.

O primeiro é que a dependência da venda de commodities para equilibrar a balança, exige que o câmbio seja desvalorizado, para ajudar a tornar competitivas as commodities brasileiras e possibilitar que o volume de commodities vendidas possa financiar o desequilíbrio gerado pela balança. Entretanto, isso causa uma disfunção paradoxal. Ao mesmo tempo que inibe a entrada de importados, de certa maneira protegendo a indústria nacional, o câmbio aumenta o preço de uma série de matérias primas, fazendo com que uma parte expressiva da indústria nacional tenha aumento de custos. Em decorrência dessa pressão de custos, mesmo com esta desvalorização controlada do câmbio, os importados continuam invadindo o país, o que tem ajudado no sucateamento da indústria nacional ao mesmo tempo em que gera uma pressão inflacionária latente.

E onde entra a distribuição do dinheiro nesta problemática?

Além de participar da pressão de consumo, quando ela é feita na forma de salários ou de mais impostos para forçar a redistribuição, ela retira capacidade de investimento das empresas. Sem capacidade de investimento, com energia limitada, logística sucateada e pessoas cada vez mais despreparadas chegando ao mercado de trabalho, o país tem visto um importante indicador econômico se desintegrar… A produtividade.

Em síntese, o indicador de produtividade representa o quanto de riqueza (lembre-se que aqui falamos do equivalente em bens que o dinheiro pode comprar e não de dinheiro propriamente dito) cada indivíduo produtivo é capaz de gerar. O decréscimo deste indicador, associado ao aumento da renda, implica que quando o modelo de expansão da produção por meio da inclusão no mercado de trabalho se esgotar, o país poderá viver um sério quadro de pressão inflacionária, já que uma renda cada vez maior passará a ser associada a uma produção cada vez menor.

Um outro sério problema que pode surgir formando o gatilho desta armadilha, vem do fato que o governo da presidente Dilma Rousseff tem buscado instituir mecanismos de proteção à indústria nacional (sucateada pela armadilha da renda média) que passam desde a imposição de barreiras a produtos importados até o financiamento daquelas empresas que vêm sendo chamadas de “campeãs nacionais”. Ou seja, para corrigir a disfunção que tiveram que criar para suprir a demanda que eles mesmos geraram, o governo da petista caminha para promover mais disfunções.

A primeira tem relação ao financiamento das “campeãs nacionais”. Estas são justamente aquelas indústrias que não precisam da ajuda do governo. Elas vêm em plena capacidade de investimentos, por serem pautadas predominantemente na produção de commodities. Além disso, possuem facilidade para obtenção de crédito no exterior, coisa que muitas das indústrias nacionais não conseguem, principalmente as de pequeno e médio porte. Portanto, se torna uma ajuda mal direcionada que ajuda a produzir distorções de mercado significativas.

Com essa enorme abundância de recursos, as “campeãs nacionais” ultrapassaram os limites necessários de ampliação em sua produtividade e se torna mais vantajoso usar estes recursos baratos para a construção de monopólios e oligopólios, o que agrava ainda mais a principal questão dessa nossa discussão: A inflação em bens de consumo básicos, como por exemplo os alimentos (área que tem sido amplamente favorecida por esses fomentos). Portanto, este processo, além de não ajudar, tem atrapalhado o surgimento de novos competidores que poderiam deixar a indústria nacional mais dinâmica e competitiva, já que monopólios e oligopólios precificam seus produtos e definem sua produção em função da elasticidade da demanda do produto e não de suas marcas.

O segundo erro fatal está em “proteger” a indústria dos importados por meio de barreiras. Pode parecer algo estranho de se dizer em um primeiro momento, mas vejam que estamos tratando de um cenário onde há uma pressão inflacionária latente. Ou seja, há muito dinheiro girando para poucos bens sendo produzidos no Brasil e a tendência é de queda da produtividade média, o que deve agravar a situação quando o número de pessoas incorporadas ao mercado de trabalho chegar próximo ao seu limite. Esta inflação represada só não disparou ainda porque os produtos importados ajudam a segurar grande parte da oferta. Ao dificultar esta entrada dos importados, há uma tendência de que os preços internos sejam pressionados, inclusive tornando inócua esta medida de proteção. Além disso, a proteção do mercado interno pode gerar represálias no que tange ao comércio internacional, colocando as poucas indústrias competitivas que temos no exterior, em uma situação delicada.

Além de tudo isso, agora o governo acena com a possibilidade de mais um erro ao pressionar o setor elétrico a conter seus preços e, com isso, segurar parte desta pressão inflacionária latente. Entretanto, isso pode levar a um agravamento da situação do setor elétrico do país, que já não é das melhores, o que pode dificultar ainda mais a recuperação da indústria nacional. Ademais, este indício de que o governo usará os preços sobre os quais possui controle para conter a inflação é preocupante ao passo que pode levar até mesmo à escassez destes bens e serviços e à potencial formação de uma pressão de preços represados que poderá explodir gerando inflação galopante.

Toda esta dinâmica ainda está associada a uma enorme necessidade de capacidade de financiamento estatal, que tem dado indícios de falência no médio e longo prazo. As contas públicas têm aumentado gradativamente, ao passo que a base tributária tem sido constantemente sacrificada para incentivar o consumo, o que pode levar à perda de capacidade do governo de agir em caso de eventual necessidade de amortecimento de um fenômeno de retração. Tudo isso pode ser ainda mais devastador se associado a uma crise no cenário externo ou uma eventual retração no mercado de commodities. O governo, neste caso, poderia se ver encurralado, sendo obrigado a pagar um alto preço por esses 4 anos de políticas de expansão de crédito.

Por fim, há um efeito recursivo de toda esta dinâmica que ainda pode agravar ainda mais a situação exposta. Com o endividamento gradual da população, esta deve chegar a um limite em sua capacidade de obter crédito. Se a pressão inflacionária latente, que vem sendo criada e cultivada pelo governo desde 2008, explodir, ela pode ser seguida de um colapso do que restou da própria indústria, pois a retração da dinâmica de consumo poderia levar à queda no consumo, principalmente de bens de alto valor agregado, como o mercado de automóveis e, em especial, a construção civil. Em um efeito recursivo provocado pelo colapso da indústria e pelo desequilíbrio do câmbio, a disponibilidade de bens poderia cair em ritmo similar à queda da renda, alimentado um raro processo de retração econômica, associada à inflação, por um período razoável de tempo.

Diante do que foi explicitado até então, é possível desconfiar que a “Nova Matriz Econômica” pode se tratar, na verdade, de uma grande armadilha montada com uma apetitosa isca chamada crédito fácil e distribuição forçada de renda. Em termos metafóricos, praticamente um mecanismo de implosão econômica que pode levar o país a um cenário dramático de de inflação alta associada a retração do crescimento econômico. É preciso torcer para que o governo da presidente Dilma Rousseff acorde a tempo e ataque a causa raiz do problema, criada pelo próprio governo, revertendo as políticas de crédito fácil e de distribuição forçada de de renda, antes que elas culminem com a implosão econômica do Brasil.

Leonardo Augusto Amaral Terra
Leonardo Augusto Amaral Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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